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Miga, me ajuda

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Me ajuda, miga. Mexeu com uma, mexeu com todas. Então, miga, não fala que ela precisa de um trato. Não fala que ela é puta, ou que ela “se passou” porque bebeu. Não existem limites de passamento quando se trata de um homem, então, miga, sua loca, pra que riscar uma linha até onde pode ir sua colega?
Empodere-se, miga. Mas ajuda a miga a se empoderar também. Não a diminua, nem que seja pelo gostinho sacana de entortá-la para parecer maior. Miga, isso é loucura. Não diga para a miga que você supervisiona que ela tem que se arrumar mais, porque do jeito que anda vai perder o namorado. Não tem a ver com maquiagem, tem a ver com relacionamento. Se para ele falta maquiagem, miga, é um problema muito sério dele. Não tem que ser seu. Miga, isso não pega bem nem como miga, nem como miga que acha o feminismo o máximo. No facebook.

Facebook. Da Página: Empodere duas mulheres

Não diz que ela merece (o que quer que seja), miga. Não faz isso comigo. Ela não merece, eu não mereço, você não merece, nenhum ser humano merece. Miga, chega de propagar essa culpa. Essa ladainha que a gente recita até de olho fechado. Não combina com a gente, miga. A gente é forte, mas a gente tem que lembrar que somos a gente. Não é ela e você, não é você e eu. Somos várias migas ressurgindo contra tudo aquilo que há milênios nos dizem pra ser. Ou como ser. Ou não ser.

Artista: Owen Gent

Não insinua qualquer coisa de uma miga porque divide a casa com outra mulher. Porque se ela não casou, miga, isso nem seria motivo de chacota. E nem se ela não gostasse de homem, miga, não seria da sua conta. Mas não vem com julgamentozinho torto, não faz a cara das miga ficar no chão. Porque, miga, convenhamos. Você deveria era achar bonito mulher que paga as próprias contas, mesmo rachando com a companheira de apartamento, sem depender de pai, marido ou namorado. Não deveria, miga, usar algo que pra você é ofensa para tentar expor ou avacalhar a vida dela.


Facebook. Da Página: Empodere duas mulheres

Lembra, miga, a gente não diminui a outra. A gente exalta a outra, porque juntas somos mais. Porque, miga, mulher independente é pra ser aplaudida, por mais que você não seja. Somos companheiras de ultraje e de batalha, então, não vá se digladiar com outra do mesmo lado do combate. Miga, não seja louca.
Foto: Fernando Sato/Jornalistas Livres, durante protestos em São Paulo - 2015

Me ajuda, miga. Não é que não pega bem. Não é só porque você compartilha textão no Facebook defendendo as miga, mas na prática reproduz o mesmo discurso machistinha do seu tio-avô. É porque, miga, a gente tá junto nessa. Quando você recrimina a outra, está dando comida para aquilo que também te fere. Te machuca, te humilha, te estupra. Te diminui.
Miga, seja menos. Menos machista, menos contraditória, menos incoerente. Seja mais miga das miga. Me ajuda a ser sã quando eu também escorregar. Quando eu for louca de mesmo em pensamento tentar ferrar a outra. Não é que é mais bonito, miga. É questão de sobrevivência. Minha, sua. De qualquer uma.
Facebook. Da página: Feministas Revolucionárias. 


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Amores antigos não hão de vingar

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Mortos não servem de ressuscitar, assim como amores antigos não hão de vingar. São projetos falhos, plantas de casas desordenadas, inimigos jurados de nascença. Não adianta embranquecer as paredes, trocar os móveis de lugar, deixar de procrastinar. Amores antigos não se leem. Já morrem morridos de matar. Amores antigos nem vão durar.
Amores antigos não dão certo em 2013, nem em 2014, muito menos em 2015. Não sobrevivem nem regados a café, a chá, a cachaça. Amor antigo se rechaça. Amores antigos não são outros nem depois de três maratonas. Não há fôlego, repele-se. Amores antigos não de louça, são madeira de demolição. Quando teima em brotar, feito inço, na teimosia de quaisquer amantes, não há valente que não se pele diante dos que se consomem. Chama bruta do querer, flor lilás de fenecer.
Amores antigos são aquele vestido velho que se a gente não doa para a caridade acaba usando. E se arrependendo. Amores antigos são capazes de rasgar no meio do compromisso. Cedem aos remendos. Mancham o álbum de tanto folhear.
Em amor antigo não se toca, mesmo com lembrança das melhores. Besteira revirar o que já está para lá. Para o que não haverá. Amores antigos não sobem a serra, só baixam o decreto: não hão de vingar. Amores antigos não se enquadram na lei do que será. Amores antigos não serão futuros, nem escarafunchados pelos escafandristas, revirando a cidade submersa. Amores antigos não reanimam nem com cinema, nem com açúcar, nem com filme brasileiro, nem com Chico. Realidade perversa.

René Magritte, Os amantes, 1928 

Amantes antigos não se tocam, não se veem, não se compreendem. Amores que já foram não salgam nem com suor antigo. Nem com nostalgia daquele perfume. Amantes antigos são cruéis no desatino. Artigo fim, inciso não insista alínea acabou. Não se tocarão, não se verão, não se compreenderão. Lei da vida. Nada de bom acontece quando um amor antigo teima em piscar. 
Não há três Natais que resistam a um amor antigo. Não há Cristo que perdure. Não há manjedoura impassível. Não há delicadeza no afogamento das lembranças. Balé trágico, pássaro de fogo, benção e perdição. Dual, o amor antigo mata por liberdade. Vida e destruição. Nascimento e morte. Amores antigos são como a sorte.

E morrendo aleatório sabe-se semente. Por isso antigo amor a gente planta, mesmo por teimosia, para ver se sabe. Só para dizer que conhece o fim de antemão, película repetida, eu avisei. Amores antigos a gente sabe que não vingam, é regravação. Mas de repente se vê amansando a terra. Jogando água e colocando o vaso meio de lado de novo no sol. Só para ver se, teimando a sorte, floresce diferente.
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Dos maiores clichês das minhas consolações

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Sempre soube reconhecer um abraço de amor. E quando as vi abraçadas ali no meio da escadaria, atravancando meu caminho, sabia que era amor. Outros poderiam xingá-las em alta voz ou pensamento. Estavam atrapalhando quem subia à Consolação. Na cidade louca da pressa, no pico da hora, no fluxo dos sentidos. Dos dois lados da escada, qualquer um que subisse ou descesse se depararia com elas. Tropeçaria nelas.
Não tive tempo de me incomodar. Porque era abraço de amor. Elas paralisadas, tão conectadas que me deu vontade de me abraçar. Não era um abraço de quem se atreve a agarrar o ser amado instintivamente e dizer que o ama. Era um enlace de despedida. Provável que uma subisse a Consolação, a consolação onde terminam todos os amores que começam no Paraíso da Pauliceia absurda. A outra decerto desceria ao subsolo, à passagem subterrânea onde se confundem os livros do sebo, as obras de arte, a música clássica, o mendigo acolhido. Uma certeza tive. As duas, qual fosse a direção, desceriam ao inferno.
Frida Kahlo, As Duas Fridas, 1939

Depois do abraço derradeiro, inevitável o suplício de todos os finais. Embora carregado da promessa de novas linhas, a letra depois do ponto final tem essa mácula do trágico e da dor de todos os mortos. Já passei por inúmeros desses ciclos e por mais tantos passe, eu sei. Essa dor é igualmente sofrida. A vontade de afundar a cara no prato de sopa e nunca mais voltar. A certeza de que vai passar, mas até lá... Até lá é essa dor tão amarga e tão presente. Tão palpável que poderíamos dar-lhe um nome.
Passei por elas e voltei meu olhar. A menina de frente para mim apertava os olhinhos atrás dos óculos quadrados. Enxerguei ali pairando a dor que já foi tão minha. Quis dizer para ela, para as duas, que ia passar. Eu sei, por mim, por todos, sempre passa. Só que até passar parece que precisamos cumprir antes o itinerário ao inferno. Ganhamos a passagem pessoal e intransferível. O problema é que a viagem é tão filha da mãe que vai fazer esquecermo-nos dela ao virmos um novo amor. Assim, como se ela nunca tivesse existido.

Eu não sei por que insistimos em novos amores reconhecendo todo esse ciclo. Amores acabam sim. Não sei por que não nos alarma uma luz na cabeça, vermelha e piscante, dizendo: foge. Você logo estará às voltas em um passo de dança triste, coreografando lágrimas com a desolação, com a consolação. Eu não sei por que essa luz não acende nunca. Eu só sei reconhecer um abraço de amor. E eu sei que tem a ver com a esperança do eterno. E se ela, a esperança, não der conta, sei que vai passar. Sempre passa.


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A gente vai porque sabe que tem para onde voltar

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Não estou em Pasárgada, mas sou mesmo amiga do Rei. Ou, melhor, sou filha do Papai Noel. E por mais que essa sentença não faça sentido para quem não saiba a profissão do meu pai, basta saber que aqui passo bem. Passo os dias como num reino.
Um reino do qual debandei há muitos anos e, nos últimos, tenho aparecido só de relance. Venho pingada. Nunca mais desfiz minhas malas. Em cada passagem, uso o que preciso de usar e deixo a mala de canto, esperando ser enchida de novo para partir. Nunca mais fui vivente, somente hóspede.
No entanto, em cada visita me sinto inteira dessa casa, das estantes, dos tacos no chão. Afinal, também são minhas as fotos nas paredes. São meus os livros e trapos que larguei para trás, sou dona até de alguns estragos nas paredes.
Uma amiga me diz que a gente faz as loucuras que faz por aí porque sabe que tem para onde voltar. Essa é a definição mais bonita que tenho para porto seguro. A gente se joga no mundo sabendo que se o mundo não for legal com a gente sempre tem destino certo na passagem. Podemos voltar quando quiser, quando der, sempre tem braços abertos à espera.
Só que quando se tem um porto tão seguro, um lar tão sólido, uma casa tão aconchegante, dentro do coração da gente nenhum lar será lar. Parece que será sempre essa vida pingada, essas casas improvisadas, essas escolhas não tão perenes. Não investimos em nada dentro das nossas próprias casas, como se fôssemos foragidos que podem ter que levantar acampamento a qualquer momento. Dormimos com um olho sempre aberto.
Não há perigo. Há somente o peso de se saber fugida. De ter deixado o lar para trás e não se saber tão digno de fundar outro. No fundo sabemos que, ao sermos donos de outro reino, aqui não seremos mais os escolhidos. Destinados aos agradados, aos pratos feitos para a gente, às opiniões esperadas e ouvidas, à cama pronta com cheiro de alfazema.
Não seremos tanto essa visita importante, que a cada volta leva a mala mais cheia de agrados. Carregamos na mala por quilômetros e quilômetros coisas daqui que poderíamos muito bem encontrar lá. Mas as daqui têm cheiro de mãe, têm recomendação de pai. Têm gosto de herança.

A gente vai porque sabe que tem para onde voltar. E os daqui parecem saber disso. Então, a cada passagem de relance deixam o reino mais acolhedor. Pintam a casa com as cores mais quentes, incensam o lar com a nostalgia da infância, servem os melhores temperos. Dizem sem palavras que aplaudem o voo, mas estão cá embaixo prontos para o retorno. Porque eles sabem que a gente pode voltar. Mas a gente não volta.
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Ainda?

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Um amigo foi comprar cápsulas de café e, na hora de pagar, perguntou quais seriam as formas de pagamento. Considerando que comprou várias e que o preço não é nem um pouco baixo, quis saber como amenizar o rombo. A atendente lhe disse que poderia parcelar no cartão, em até dez vezes. “Mas pense bem. Você vai pagar CAFÉ em DEZ vezes?”, ela desafiou. Ele me contou essa história para relacionar café com sofrimento. E desde então eu venho pensando carinhosamente sobre todas as contas que parcelei.
Sempre achei estranho quem pagasse almoço no cartão de crédito. Por mais caro que o almoço seja. Porque o prazer de sentar-se em um belo ambiente, de cheirar o prato e adivinhar os apetitosos ingredientes, de saborear cada pedacinho, tudo isso é no instante. Tudo isso é até bem efêmero. Por que deixar para pagar isso tanto tempo depois? Fico pensando o mesmo dos fracassos, das derrotas, dos desencantos. Às vezes a dor é tanta e a gente não consegue sofrê-la à vista, mesmo que haja 10% de desconto. Existem sofrimentos que não permitem abatimento instantâneo. Ou é capaz de a vítima se despedaçar nessa liquidação. O gerente ficou maluco, mas calma. A gente não precisa ficar.
O mais sensato então, é dividir essa dor em parcelas e deixar-se entrar em contato com ela aos poucos. Enquanto vamos curando as feridas, os pedacinhos de sofrer vêm de novo e de novo, como ondas esparsas. A diferença é que a cada uma que chega o caldinho é menor. O que era tão forte que poderia te afogar tempos depois vira uma marolinha. Ficamos mais fortes. Ou aprendemos a nadar.
Pode ser que mais pra frente a gente consiga até adiantar o pagamento de umas parcelas, a fim de amenizar a dívida. Mas na hora de contrair esse financiamento, na hora que o moço uniformizado pergunta, maquininha em punho, se é débito ou crédito, e em quantas vezes, aí, meu amigo, a resposta tem que ser na lata. A resposta tem que ser inteligente.
Nem sempre a gente precisa se endividar por tudo. Tem baques fortes, mas nem por isso a gente parcela. Às vezes chora no travesseiro naquele mesmo dia, ou balança a cabeça na hora e até deixa pra lá. Mas tem dores mais intensas, e aí talvez a gente não tenha energia ou astral suficiente na conta para pagar. Para não debitar as forças destinadas a outras coisas - como trabalhar, tocar a vida, cuidar dos filhos, fazer o curso de inglês - a gente resolve parcelar.
Por quanto tempo será necessário digerir essa dor e zerar essa conta cada um é que sabe. O que tenho aprendido é que não dá para se estender demais. Porque às vezes a gente está lá, deixando de fazer outras coisas, evitando viver a vida para curar uma dor que já deveria ter passado. Estamos lá, meeeeeses depois de um pé na bunda, perdendo preciosos tempos stalkeando a pessoa no Facebook. Ficamos ruminando uma raiva do chefe ou uma humilhação pública por um tempo tão longo que intoxica. A nós mesmos.
Sofrimento parcelado é uma escolha. Não tem consultor de finanças que determine em quantas vezes você tem que financiar cada fracasso. Cada um sabe que suporte tem ou, quem sabe, que suporte decidirá alcançar, para quitar a sua dor. O que não pode é olhar a fatura do cartão e ver que você ainda está pagando por algo que comprou há muito tempo. Procurar nas letrinhas miúdas porque naquele mês a fatura veio tão alta e se deparar com uma dor antiga, que você nem lembra porque comprou. E pior, você ainda está pagando a 8 de 10. “Ainda???”. Ainda.
É frustrante pagar a conta do café por mais tempo do que você consegue se lembrar dele. É incompreensível pagar uma refeição que foi há tanto tempo atrás. É chato estender uma dor por um tempo em que você deveria estar vivendo tantas outras coisas. É triste saber que às vezes a gente sofre picado, porque não se acha capaz de sofrer golpes maiores por vez.

Como anda a fatura do seu cartão?
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De onde vim

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Para um nômade, pergunta pior não tem que: “De onde você é?”. Acostumado a ver o chão de passagem, e não sob a insígnia de raiz, aquele que viaja e pouco para tem motivo de sobra para querer adiar a resposta. “É uma longa história”, geralmente se segue. Pois para mim, que nem venho de tantos lugares palpáveis, mas tantos e tantos imaginados, a pergunta certa não devia ser de onde sou, porque minha identidade está perdida num jogo de espelhos. Devo responder, sim, “de onde você vem?”.
Porque eu venho. Venho, esse movimento sem assinalar direito ponto de partida. Venho de uma terra que ficou etérea nos meus sentimentos, presa num canto chamado saudade. Nem sempre saudade doída. Às vezes só saudade. Venho de um lugar com campos a perder de vista e árvores de raízes tão grossas que é difícil entender essa falta de pertencimento.
Venho de um tempo que era meu camarada. Que não me pedia para ser ou ir, ele só passava. Suave, tão suave como aquelas tardes. Aquelas que se perderam no meu incontrolável querer de liberdade. Venho da vontade pulsante de ser algo além daquelas paredes escritas para mim. Da farmácia que minha mãe esperava eu abrir. Dos rostos conhecidos nos bancos da igreja. Venho da fome de mundo que aquele prato nunca deu conta.
Venho do balançar da rede e do bater de asas de beija-flores que rumavam sempre para outros rumos. Para o Sul, eu pensava. Os beija-flores devem ir para o Sul porque estão sempre com pressa. Eles já têm o norte. Só deve faltar o Sul. Venho desse suspiro de me saber passarinho. Indomesticável. Venho das águas roladas, de chuva ou lágrimas, seguindo impulsos naturais.
Venho às vezes da vontade de voltar. Mãos calejadas, rugas aqui e ali de chorar. De chorar aquela saudade, aquela certeza de que tudo estará tão fotografadamente tão igual como o impresso nas minhas retinas de menina. Tão igual de mim. Venho da face assombrada de quem vem de um lugar pequeno e se vê refletido numa pequenez familiar. Aquele lugar tão circunscrito às nossas lembranças não podem ser a gente todo, arre. Mas é. Ou melhor, mas vem.
Venho dessa inquietude de volta ao mundo, de dar a volta em si mesmo sem sair do lugar. Do lugar comum. Do lugar gigante tão parecido com o de onde eu venho. Venho, ora menina, ora severina. Venho de uma mãe e de um pai que se conheceram pelas janelas, desafiando uns 7 estados e uns metros de altura abaixo. Talvez fosse predestinado, para mim e meus irmãos, ser de onde não sabemos ser. Vim de onde nunca viemos.
Das histórias do mar do Recife, venho da ânsia de querer pegar onda. Venho da lembrança do dia que aprendi a boiar num mar calmo, sem oscilar. Venho do nunca aprender a nadar. Venho dos caprichos, de jardins frondosos, de letras escritas e não enviadas. Venho do frio e do medo da madrugada. Do voltar para casa. Venho da saudade de ter aquele prumo.


Eu venho, venho porque nem sempre me dá coragem de ser. Ser é retrato estanque. A gente é e pronto, coisa chata. Quando a gente vem é diferente. A gente inventa um vir, um ir. A gente inventa que tem compromisso com o balanço. E o vim dá mais amplitude ao coração. O vim não tem certidão. Quando ninguém prova de onde você é, dá mais razão para a gente estender a mão e dizer: “vem também?”
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Os jardins que não amei

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Minha amiga posta uma foto de um de seus jardins de apartamento que não deram certo. A foto me transporta na hora para todas as minhas plantas mortas, jogadas, não sem dó, em sacolas de lixo e despejadas rápido na lixeira mais próxima. Para esquecer.
Dizem que quando a gente não cuida bem de uma planta, fica difícil manter um bom relacionamento amoroso. Falo isso para minha amiga e ela quase morre. Assim como ela, não sou boa com tentativas de jardins. Já matei um sem-fim de plantas, nunca levei adiante o plano da horta e, no frondoso jardim da casa materna, o máximo que contribui foi cortando a grama (nem sempre linear).
Penso que a relação entre jardins e amores tenha a ver com o cultivo. E cultivo, com paciência. Nas minhas bagagens lembro-me sempre de plantas já feitas, já floridas, só devendo ser regadas e contempladas. Mas cuidar parece tão obscuro... Minha tentativa atual é um vaso de pimenteira que nem sempre sei se está morrendo. Às vezes eu fico na sala observando o vaso, esperando que ele me devolva um sinal milagroso – “sim, está bom de água”, “tire-me do deserto dessa janela, por favor!”, “onde você esteve nos últimos dias? quase morri de sede!”. A planta não me devolve nada e, apesar de não ressecar, fico em dúvida se ela está feliz.
Teimo bravamente em não tirar uma foto do vaso e enviar para minha mãe – a melhor jardineira da vida – para perguntar se está tudo certo. Insisto em cultivar a minha percepção, ou meu feeling, que também sabe – ou deveria saber, ou um dia vai aprender – a cuidar.
Lembro-me de outra amiga se queixando que não era boa em fazer bolos e eu devolvendo que essa coisa de ser boa ou não ser não existia. A gente insiste. Foi preciso eu fazer uma porrada de bolos, a maioria pior que sola de sapato, para eu acertar. Para eu ganhar confiança, ganhar uns truquezinhos que só vêm com a experiência, ganhar elogios. Cozinhar, assim como cultivar, também tem a ver com paciência. E não só com os bolos, mas com o arroz e feijão, ou com a carne de panela, foi preciso estar sozinha. Foi preciso estar faminta.
Não sei se minha amiga aprendeu a fazer bolos, mas na arte de cozinhar eu ainda insisto na prática. Hoje sei o meu tanto de salgar, sei os temperos que gosto, os que dão certo. No começo lembro que suava frio quando via na receita a linha quase tão sombria quanto uma sentença: “misture até dar o ponto”. Que ponto é esse, Jesus? Que ponto é esse que é tão subjetivo e tão impreciso para não ser mais detalhado decentemente na receita? Como é que eu vou saber que eu cheguei na porra do ponto, me diz?
Em se plantar também cavo uma prática. Coloco meu vaso de pimenteira na janela onde bate sol e o tiro em momentos aleatórios, quase que como instinto. Despejo água em doses diferenciadas, a depender do humor do dia, o meu ou o da pimenteira. Eu cuido dela mesmo sem receita. Eu inventei um ponto.
Assim como não existia resposta para o ponto da receita, assim como a planta não me diz nada, acho que diante do cozinhar e do cultivar o relacionamento amoroso tem sempre um agravante. Existe um outro. Capaz de esbravejar quando falta água, capaz de assinalar quando se passou do ponto. E é aí que considero os bolos embatumados e as plantas ressequidas nos sacos plásticos o grande estágio.
Ao não amar os jardins, ao não se lançar nos experimentos gastronômicos, mesmo com o prenúncio do desastre, perco, ou perdemos, a enorme oportunidade de viver uma experiência única e no singular. De paciência, de cultivo, de cuidado. De transformação mágica, sensorial, libertadora.
Cozinhamos quase sempre solitários, damos água e amor a uma plantinha recebendo quase que só como recompensa vê-la crescendo saudável. Podemos ganhar elogios com os pratos ou receber corações na foto da plantinha. Mas o ato, assim como escrever, continua solitário. E a surpresa que quase sempre vem com as duas experiências, as intempéries, o aguçamento dos sentidos, o doar-se, mesmo que cozinhando somente para si, são atos de amor. E um grande passo para o cultivo e a sabedoria tão necessários para o se relacionar.
Meu próximo passo é cultivar um novo amor. Já comprei um vaso, dois quilos de terra e algumas sementes. Pedi conselhos para minha melhor jardineira e devo me lançar no desafio. Quero semear para ter a paciência de aguardar meu novo amor nascer e crescer. Para então regá-lo, percebê-lo, vê-lo sempre a se renovar. Se tudo der certo, se meu jardim vingar e florescer, prometo fazer um jantar para comemorar.

Foto da @cristalhui

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Confraria das mulheres incríveis

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Andava pela rua de casa esses dias, rodando minhas chaves entre os dedos. Nesse pequeno movimento, dei-me conta do quanto me é importante carregar essas chaves. Sei que em qualquer casa que se preze cada integrante tem o seu próprio chaveiro, mas, para mim, as chaves em mãos representam o controle da minha vida. Minha autonomia como mulher, independente, que paga as contas da casa e tem de resolver tudo, de um jeito ou de outro.
Minha família mora há quase 1.000 quilômetros de distância. Eu os vejo duas vezes por ano, com sorte uma vez a mais que isso. Tenho aqui em São Paulo uma lista gigante de amigos, de todas as tribos e religiões, de modo que nunca me sinto sozinha na cidade tão grande como a lista de amigos. Na cidade que escolhi para mim. Tenho um emprego, uma rotina. Tenho problemas que escapam a essa rotina. Da geladeira que quebra, dos serviços que contrato e descontrato, das roupas que estendo no varal, no varal que cai, dos produtos que preciso repor nos armários. É mais fácil administrar tudo isso numa casa de duas pessoas que mal param em casa, mas, lembrando das chaves rodando nos dedos, se não resolvemos (eu e a roommate) essas pequenas pendências do cotidiano, a casa não funciona, a engrenagem da rotina se rompe.
Soma-se aí o trabalho, que sempre traz consigo problemas de toda ordem, probleminhas e problemões, mais o fato de se habitar numa cidade de dimensões intergaláticas, o que torna viver um desgastante diário. Ah, se não fosse aquela cerveja no final da semana, dividida com a amiga que está nesse mesmo barco que você. O barco que incrivelmente nunca afunda, independente das intempéries.
Foi numa mesa de bar com uma amiga que notei o quanto ela era incrível. E o quanto eu possuía amigas e mais amigas incríveis. Claro que tenho amigos e mais amigos também estupendos, mas me detenho às mulheres que, como eu, vivem nessa angustiante rotina de ter que resolver tudo com os picos de humor que lhes são peculiar. A maioria, como eu, rodando as chaves das suas vidas entre os dedos, resolvendo tudo aquilo que teima em dar errado, quebrando as cabeças em seus empregos, engolindo seus sapos diários e dando a cara a sopapos em relacionamentos muitas vezes furados.
Na mesa de bar, ouvindo minha amiga desfiar a longa lista de reclamações, que incluía o fato de não ser respeitada em sua posição no trabalho por ser mulher, lembrei que outra amiga chorava a sem fim ilusão de um amor que passou e não cansava de passar, pisando fundo como que com salto agulha o que restava dela tentando se reerguer das derrotas passadas. E me veio à cabeça que outra amiga, por telefone, ressaltava para mim seus defeitos, tantos, que me restava balançar a cabeça para escapar-me daquela sua imagem torta e lembrá-la das suas incontáveis qualidades, que me fazem admirá-la, sempre e tanto.
Todas mulheres incríveis. Junto com elas vou reunindo na minha lista de amigas outras tantas. Professoras, empresárias, estudantes, jornalistas, advogadas, psicólogas, fotógrafas, bancárias, vendedoras, publicitárias, naturólogas, as que trabalham no negócio da família. Profissionais de sucesso ou ainda juntando trocados para pagar as contas no fim do mês. Mas todas mulheres incríveis. Esposas, namoradas, solteiras, tendo suas crises de relacionamento ou procurando o amor de suas vidas, mesmo que nunca admitam em público acreditar nessas baboseiras. Com espaço vago ou não em seu coração, mulheres incríveis. Lutadoras, grevistas, aquelas que se dedicam a uma causa, a um ideal, aquelas que não conseguem pertencer a grupo nenhum, as que não se engajam, as que veem a passeata de longe, as que erguem cartazes em punho, aquelas que abrem uma ONG, aquelas que têm um objeto de estudo para a vida inteira e são aplaudidas pela dedicação em vida. As que passam a vida inteira buscando o que as move. As que vivem longe da família, as que constroem a própria. As que encontraram o emprego dos sonhos, as que montaram a própria empresa, aquelas que não sabem o que querem e sabem que isso não é vergonha alguma aos 30. Talvez não vão saber a vida toda.
O que há de comum entre as minhas mulheres incríveis? Elas não se dão conta do quanto são incríveis. Do quanto se desdobram pelos dias, do quanto seus insights e sua sensibilidade transformam a vida de quem está perto delas. Do quanto o seu abraço ou a opinião daquele filme que acabou de sair e ela baixou pirata pode fazer outras mulheres incríveis se esquecerem dos seus problemas, mesmo que por umas horas. Não sabem o quanto suas chaves rodando entre os dedos despertam a ira de mulheres que talvez nunca saibam o que é essa autonomia, por terem escolhido caminhos mais fáceis, mas nem por isso passíveis de julgamento. Do quando sua coragem em enfrentar o mundo, ou a rua de casa, seja ela de uma megalópole ou de uma cidadezinha do interior, inspira outras mulheres a rodarem também suas chaves entre os dedos. Do quanto homens que passaram pelas suas vidas, com dor ou não, talvez nunca saberão o que é ter uma delas ao seu lado, transformando a vida deles, como elas transformam as minhas.
Por isso, proponho a Confraria das Mulheres Incríveis. Nessa irmandade se reunirão todas as mulheres que não sabem que são tão estupendas, mas tem o coração maduro e a intuição aflorada para reconhecerem outra mulher exuberante e para fazê-la saber o quanto é grande. Isso porque percebi que as minhas mulheres incríveis são muito boas em reconhecer nas outras as qualidades que não percebem nelas mesmas. Então, nessa Confraria, além de comermos muito chocolate, tomarmos café, gargalharmos um sem fim de barbaridades e desfiarmos todos os assuntos corriqueiros e proibidos em qualquer roda, diremos umas às outras o quanto são especiais. Ao invés de balançar a cabeça negando o elogio, cada uma das mulheres incríveis receberá com deferência o adjetivo que lhe é conferido e se apoderará de suas qualidades. Para sair de cada encontro mais fortes. Mais gratas. Mais incríveis.

Circus Horse Rider, Chagall

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Um livro carregado de ausências e silêncios

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Quando eu vi o Valter Hugo Mãe, ao vivo, a poucos metros de mim, não sabia ainda que aquele livro que eu carregava na bolsa era sublime. Quando eu abracei o Valter Hugo Mãe depois da fala, encontrando-o no caminho que ele percorria até a mesa de autógrafos, não tinha noção do quanto o seu livro me abraçaria por noites e noites a fio. o livro que eu ganhei quando chorava.
Eu estava com “O filho de mil homens” na bolsa, mas o livro ainda não estava em mim. Hoje está.
Quero eternizar esse livro na minha memória, no meu caminhar, em todos os meus dias. Quero carregar a certeza desse livro comigo. Porque o que ficou de mais bonito, entre todas as bonitezas das páginas que li, foi a certeza do amor. Com “O filho de mil homens”, aprendi que não é feio se ter esperança. A esperança é para se carregar como se carrega um livro sublime na bolsa. É algo capaz de preencher de felicidade sem razão de ser. Ler esse livro foi como fazer aniversário todo dia. Aquela certeza de que há vida, que há encontro, que há boniteza. Aquele caminhar pela rua de todo dia sabendo-se único e especial. Sim, uma vez por ano me dou esse presente, essa esperança.
Cada página lida foi feita de dezenas de frases grifadas em pensamento. Frases não, versos. O romance é tão poesia que parece ter sido declamado. Em alguns momentos de leitura frenética, eu sentia que ele, ao contrário, tinha sido despejado. Com ardor. Imaginei um Valter Hugo Mãe inteiro de poesia, com bonitezas acumuladas de um jeito tão ofegante, que seria capaz de iluminar um mar inteiro. E aí, incapaz de dar vazão a toda a graça do incapaz de ser dito, metralhava com palavras um sem fim de poesias, de esperança.
Imaginei ainda um Valter desajustado no mundo, sozinho na praia, querendo não ser só. E para não ser sozinho resolveu ser todos e escreveu o livro mais exultante que poderia ter escrito. O livro de todos os homens. O livro que eu queria ter lido sentada na praia, as visíveis e as imagináveis. O livro que me preencheu como mar de um afogado.
Desajustada como sou, conheci na lata todos os perdidos e mal-queridos do mundo imaginário de praia e campo. Brinquei com eles desde criancinha. E entre os estropiados eu me encontrei. Entre aquela lama incapaz de gerar colorido, eu me vi. Naquele bando de gente silenciosa, doente, perdida e sozinha com as profundezas do espírito, eu fui abraçada. Eu sonhei. Eu rezei. Eu sussurrei versos em voz alta. Eu mal contive a minha esperança.
Chorei “O filho de mil homens” por dias. Lia antes de dormir, soluçava abraçada no travesseiro. Lia no horário de almoço, chorava borrando a maquiagem. Lia no metrô, na calçada, na sala de espera. Chorava sem medo. Em cada lágrima brotada, uma esperança ardia.
O livro tem tanta metáfora que explica o mundo em 200 páginas. Poetiza a tristeza, a morte, o preconceito, o desencanto. Mas ele versifica o encontro. O momento em que duas almas se tateiam no escuro e a vida se torna tão devota desse unir-se que parece explodir. Todo encontro é uma esperança. A beleza que carrega aquele que sabe que há de ser. O caminhar frente ao nevoeiro, firme, perdido, mas se sabendo caminhante. Ler esse livro é apostar num caminho. E um caminho de poesia é tão lindo que abriga erva daninha e espinho.
E, imaginem só, um livro de tanta lindeza ainda abarcou o sofrimento. Ainda doída, chorei feito criança quando o pescador – de sonhos, de gente, de esperança – reconheceu que a gente tem que nutrir carinho pelo sofrimento, pelo sofrimento em que a gente construiu uma felicidade. Imagina pensar em sofrimento como terraplanagem? Um sofrimento tão fundamental como um pilar. Pilar de lindeza. Nunca tinha eu bem pensado, mas não é possível desprezar algo que nos fez mudar, ser feliz. Saber-se feliz é ter se reconhecido na dor, algum dia. A dor é a nossa referência. Também está no caminho do final feliz. Ou no feliz de agora, de todo dia. A felicidade também abraça a decadência. Mas nunca a falta de esperança. E quem diria, Valter me fez querer ter um dia saudade do sofrido de hoje. De ter chorado hoje. Da dor de hoje. Porque o livro, como disse, é todo certeza. E no sofrimento também há certeza, confiança. Em um mundo de tanta ausência, de tanta pergunta, confiar já é a resposta.
Eu nunca serei capaz de explicar o que esse livro mexeu em mim. Na mesma janela que o pescador abria para o mar, e o mar nele, esse punhado de beleza me abriu um monte de silêncios e a ausência do não sentir. Porque em cada letra eu senti com força. Pulsou em mim beleza e confiança, que terminavam em ternura, quase sempre. Pelos perdidos, pelos pontos, pelos tropeços, pelos lascados, pelos órfãos, pelos adotados. Por mim.
Há muito amor no mundo. Há delicadeza em ser filha. Sou filha de um milhão de histórias, de um mar de esperança, de um milhão de milagres. Sou capaz de igualmente gerar um infinito de sentidos, de ser mãe de um sem fim de felicidade. Há muita esperança no mundo. E há muito amor em mim.



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Se hace camino al andar

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Meu terapeuta atende numa casinha muito aconchegante, que fica em uma rua cheia de árvores frondosas, flores bem cuidadas e quase nenhum barulho. Para chegar até lá, saio do metrô e entro em uma ruazinha igualmente fofa. Nessa ruazinha está a casa onde funciona uma empresa na qual trabalhei. Meu primeiro emprego em São Paulo, dois antes do atual.
Toda semana, na ida ou na volta da terapia, passo em frente a essa casa, uma construção portuguesa, bem antiga, mas muito bem conservada. É cheia de detalhes, caprichos. Fiquei mais de um ano e meio lá e não me lembro de uma semana sequer sem um pedreiro, um jardineiro, um marceneiro, um decorador, alguém executando alguma transformação naquele espaço, pequeno, até, considerando as tantas reformas ininterruptas.
O jardim é um espetáculo à parte. Mudas de flores escolhidas a dedo, arbustos podados irritantemente retos, pedrinhas bem dispostas, calçadas sempre muito bem varridas, uma fonte, um jardim vertical, água da chuva captada por um sistema artesanal, vasos com espécies raras. Costumava brincar que o jardim era uma versão eternamente beta, pois meu chefe estava sempre pedindo para mudar alguma coisa, acrescentar, jogar fora, de acordo com seus caprichos. Toda segunda-feira era uma nova surpresa. Acho que no fundo tudo na casa era assim, a estabilidade era um incômodo às vistas impulsivas, perfeccionistas e cheias de vontades do gran senhor.
Ainda hoje, quando passo pela casa, vejo que as reformas continuam. Tem uma sala a mais sendo construída, um caminhão sempre descarregando alguma coisa, um grupo de pedreiros trabalhando insistentemente. Como passo no sábado, raramente cruzo com colegas antigos, ou mesmo meus antigos chefes. Mas depois que eu saí, muita coisa mudou. Além das reformas eternas, muita gente da minha época saiu para outros rumos, seguindo mais ou menos essa renovação visual permanente.
O fato é que toda semana eu passo pela casa e ultimamente tenho olhado mais para ela. A casa nunca é a mesma. Nesse esforço contínuo de renovação, para saciar desejos incontroláveis de atingir a perfeição, a casa muda sempre, o tempo todo.  Mas também sou eu que mudo. A cada vez que desço ou subo a rua, sou outra. À medida que o tempo vai passando, minha distância com o período da minha vida em que eu passava mais de um terço do meu dia ali se torna maior. E, consequentemente, em minha vida esse período vai se tornando menor. Embora esteja bem próxima da casa (pelo menos uma vez por semana), estou cada vez mais distante dela.
A casa representa o lugar que abrigava a antiga Tatiana. E, cada vez que meu olhar repousa sobre ela, a casa, é outra Tatiana a olhar. O que enxergo, nessa distância proporcionada pelo tempo e pela proximidade propiciada justamente pela minha terapia, é que tudo que passei ali está situado num ponto fixo do meu caminho. Vivi ali algumas das minhas piores angústias. Dilemas profissionais, crises de identidade, medos, repulsas, raivas controladas, exacerbadas. Derramei muitas lágrimas nesse jardim tão bem cuidado. Algumas tristezas nada tiveram a ver com o trabalho em si, nem com ninguém dali de dentro, mas o fato é que essas consternações marcaram o período em que ali trabalhei.
Mesmo sendo eu que pedi demissão, para ir para outro emprego, poderia ainda sim olhar para a casa com raiva. Com aquela sensação incômoda quando vemos a cicatriz daquilo que nos feriu. Aquele momento em que a gente forçadamente precisa se lembrar de algo doído que tivemos que viver. Poderia, ainda, olhar para a casa com aquele olhar arrogante de quem costuma dizer que agora está muito melhor. A menina que gesticula exageradamente com o novo namorado, esfregando-o na cara do anterior que a deixou.
Mas, sabendo que ali não vivi nem um período ruim nem um período bom, julgado assim, de forma categórica, meu olhar sobre a casa recai sobre a certeza apenas da constatação do caminho. Do meu caminho. Aquele que não é errado, nem certo, é o caminho cheio de erros e acertos e cheio de dramas e silêncios, pausas e perdas, gritos e retomadas, romances e lágrimas, ganhos e palavras. O caminho que eu percorri, cheio de escolhas. Ter trabalhado ali fez parte de um caminho que até hoje sigo, sem saber muito no que vai dar. Cada vez que desço ou subo a rua, não sei bem onde precisamente estarei. A cada visita ao meu autoconhecimento, não sei bem no que vai resultar.
Olhar para a casa nessa perspectiva um pouco mais madura me fez repassar na mente também outros dramas passados. Outros dilemas profissionais, murros em pontas de facas, pessoas por quem sofri, finais, rompimentos, derrotas, casas perdidas, empregos recusados, amigos distantes, coisas que deixei para trás. Sentimentos doídos naqueles momentos. Mas que hoje não se tornam menores pela distância temporal. Tornam-se pequenas partículas, pequenas pelo conjunto que formam com outros fatos e outras pessoas e outras vitórias e ganhos e outros amores, empregos e outros aprendizados. O conjunto que forma esse caminho.
O que procuro saber, no caminho metafórico até a terapia, é quem eu sou. Apesar de que, um pouco como a Alice, eu saiba quem eu sou pela manhã, mas depois mudo muitas vezes desde então, percorro uma busca nesse caminho. Procuro, no caminhar, encontrar meu caminho, muito embora eu me veja envolta muitas vezes em neblina e sem bússola. Resta-me, então, reconhecer que não há um caminho, uma receita. O caminho se faz ao andar. Golpe a golpe, verso a verso. Não é também nenhum Deus dará. O caminho se faz sabendo para onde se está indo. Como um mapa da intuição.
Caminante, no hay camino. Hay dirección.

“- Você poderia me dizer, por gentileza, como é que eu faço para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde você pretende ir – disse o Gato.
- Para mim tanto faz para onde quer que seja... – respondeu Alice.
- Então, pouco importa o caminho que você tome – disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue em algum lugar... – acrescentou Alice, explicando-se melhor.
- Ah, então certamente você chegará lá se continuar andando bastante... – respondeu o Gato.”
(Alice no País das Maravilhas, Lewis Carrol)

“Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
‘Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…’
Golpe a golpe, verso a verso…”
(Antonio Machado, Caminante no hay camino)

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Os enlutados de amor

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Os enlutados de amor se cruzam nas esquinas de suas dores e se cumprimentam em silêncio, carregando ossos de seus ancestrais em sacos de estopa. Como quem arrasta pedaços de passado sacolejando em suas costas, enervados pelo barulho provocado pelas suas bagagens. Não aprenderam nada com suas malas remendadas, esqueceram tudo ao vir um novo amor. Os enlutados de amor não aceitam clichês nem menores amores. Que era melhor agora que depois. Que não era para ser, quem atestou isso e reconheceu firma? Que sairão maiores depois dessa. E que vai passar. “Um samba popular”. Os enlutados de amor sabem o quanto é ser cantor impopular nas timelines. Quem sangra a dor em versos doídos e para-choques das fossas por uma semana, ao final da qual escutam: ainda está nessa? Vai passar. É carnaval. É carnaval, é carnaval. Os enlutados de amor são aqueles feridos de guerra que percorrem distâncias absurdas após perderem um de seus membros. Não gritam, não desesperam. Apenas cumprem o expediente, mesmo lhes faltando pedaços. Os enlutados de amor pedem pão na chapa e uma média com dor e para viagem, por favor. Rasgam seus retratos para não continuar vivendo em pensamento. São enlatados, sofrimento em conserva. Congelados e delivery. Vivem suspensos no esgotamento de suas tentativas. Nas horas revisitadas sempre e todo o dia, infinitas e repetidas vezes, diariamente às seis da tarde. A Voz do Brasil. Os enlutados de amor são mais dramáticos que O Guarani. Mais previsíveis que Peri e Ceci. Os enlutados de amor querem morar em jazigos de corpos já exumados, querem respirar ares mofados, querem moléstias não inventadas para justificar. Não acreditam em horóscopos ou cartas de tarô que lhe dizem nada menos que “Ele voltará”. Os enlutados de amor são Peixes, Luas em Câncer, Ascendentes em Escorpião.  Navegam em mares à deriva de peixinhos afogados em medo. Medo de que “Ele nunca voltará”. Os enlutados de amor não são os versos todos terminados em proparoxítonas, não seu Buarque. Nem os matemáticos acordes clássicos. Tampouco os encadeamentos perfeitos de Olavo Bilac. Os enlutados de amor têm um pôster do Vinícius de Moraes, ouvem Fagner, fazem deferência a Waldick Soriano. “Volta, meu amor, fica comigo, não me desprezes, a noite é nossa e o meu amor pertence a ti”. Nas profecias dos loucos da Praça da Sé, às seis da tarde, os enlutados de amor passam e não param, membros mutilados sem pedir socorro. Não dão a mão a quem lhes decifra porque têm medo que o luto se esgote. Os enlutados de amor estendem a mão para os santinhos de promessas, das amarrações definitivas. Os enlutados de amor vestem terno e Bíblia, e gritam essa trilha. “Ele voltará! No terceiro dia, Ele voltará!”
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Instasize

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Se a foto não cabe no quadradinho pré-destinado, merece ser publicada?
Se o instante não cabe na dor de sentir, merece ser vivido?
Se o sentimento não cabe no tempo da espera, merece ser pingado?
Se as perguntas não cabem no possível, merecem ser marteladas?
Se a foto em preto e branco não cabe na moldura, merece ser exposta?
Se a ferida não cabe na cicatriz, merece ser chorada?
Se as letras não cabem no espaço predestinado, merecem ser lidas?
Se as expectativas não cabem no oráculo, merecem ser frustradas?
Se não mereço, não caibo?
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Presságio

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Dez dias antes de perder um amor, comprei duas taças de cristal. Para receber o vinho, para recebê-lo em meus braços. Trouxe as taças com carinho e cuidado. No balanço do caminhar, uma se encostava na outra, mas protegidas estavam pelos seus invólucros. Pelos receios comuns do início do amor. Em casa, em cima da pia, em silêncio, ouvi. O choque. Uma se quebrou. A outra permaneceu intacta. Dez dias antes de perder meu amor, uma parte do par se quebrou. Não foi a bola, foi a taça de cristal que me trouxe o prenúncio. Hoje tenho apenas uma taça. Eu devia bem ter desconfiado.
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Da natureza das coisas que terminam

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"A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama" (Victor Hugo)


Querida São Paulo,


Hoje o ano recomeçou para mim. Por coincidência, junto com nossos aniversários – o seu e o meu, aqui. Por coincidência, coloquei hoje o mesmo vestido que vesti da última vez que o ano começou. Há exatos 25 dias, eram outros sonhos, outras esperanças, outros os sentimentos.
Como é comum no dia em que comemoramos a minha chegada em suas paragens, revejo a minha relação contigo, cidade pulsante-fria, cidade solar-nublada. Meu paradoxo preferido. Por coincidência, meu recomeço de ano foi paradoxal. De tanto esperar vida nova, veio a morte, racional ambivalência. De tanto esperar recomeço, veio fim. Taxativo, calculado, assinalado. De tanto esperar volta, veio corte. Reto, seco, uniforme. Sem volta.
No dia do meu recomeço perdi um amor. Na perda, no fim, na morte, no corte, há sempre um recomeço. Um trem que chega é o mesmo que parte. Um encontro, ainda assim é uma despedida. O não pertencer é, ainda assim, um pertencer à coisa alguma. Perder alguém é de qualquer forma um encontrar-se. Nem que seja com a própria consciência. Com a ciência de que vai parar de doer. Mas até lá, ah, até lá...
Na atual lembrança de um amor que perdi, vejo-me multifacetada nas relações amorosas que você me deu de presente. Pequenas, quebradas, imaturas, incompletas, insensíveis, a maior parte intocáveis. Todas micropedaços de um espelho estilhaçado. Encontrei-me por um tempo tentando me reconhecer nesses cacos, mas minha identidade nunca estava inteira nesses pequenos reflexos. Tudo era um instante fugaz. Era um pedaço meu ali, outro acolá, nenhum caco traduzia minha inteireza. Razão dos cacos? Provavelmente. Mesmo os maiores me cortaram.
Ao achar que meus amores em ti seriam sempre essa falta de alguma coisa, essa entrega de coisa nenhuma, você decidiu me espantar com um novo embrulho. Recebi esse presente como quem espera pela encomenda de outro continente. Abri o pacote com pressa, tal criança em dia de festa, rasguei o papel e a fita, para dar sorte. Tive.
Vi minha imagem inteira e contínua nesse reflexo tão improvável. Reconheci-me na entrega, no amor, na plenitude. Eu não era a menina da tristeza, eu era, bendita epifania, a mulher que desfruta o amor. Carreguei no ventre não uma criança, mas uma nova certeza. A que a vida não é feita de primeirezas, mas de ultimezas. Porque o último não tem o gosto do desconhecido do início, mas tem o sabor inefável do fim da busca, da espera.
Teu paradoxo foi me transformar em cacos ao arrancar o presente como aquela guitarrinha rosa que meu pai decidiu por bem vender para uma cliente importante, depois de tê-la me dado, lá pelos 7 anos. Não é bem tristeza, não é bem raiva, cidade. É restar sem entendimento. É aceitar sem ter aceitado. É respeitar afogando no peito um mar de amor ainda em mim.
No dia do meu recomeço, comecei um novo bordado. Peguei o ponto final e comecei uma nova linha. Aqui, sou eu escrevendo. Mas lá, a menina das letras, a garota das entranhas, aquela do amor sempre tão bem expressado, ficou muda. Miúda, sem argumentos válidos. Calada. Sem bastar. Insuficiência emocional ambivalente, já que a corredeira de amor ainda rumava turbulenta no curso do rio. Desordem lenta no meu peito, turba que se tornou o leito de meu desassossego.
Quando se rompeu o amor, quando se abortou o sentimento, quando arrancadas todas as esperanças, não morri. Continuo, embora a contragosto, bem viva. Minha tristeza, Caeiro disse bem, é um pôr do sol. Esse crepuscular sentimento anoitecendo em mim conflita, sim, com o ensolarado lá fora. Paradoxal morrer quando há vida, seiva, pulsante. Clichê ser tão paradoxal, Dona cidade. Feio nublar corações em dias tão bonitos.

Não é um bom dia para comemorar. Talvez haja um dia bom para renascer.

De quem ainda te quer bem,

Tatiana


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