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Mostrando postagens de 2015

Miga, me ajuda

Me ajuda, miga. Mexeu com uma, mexeu com todas. Então, miga, não fala que ela precisa de um trato. Não fala que ela é puta, ou que ela “se passou” porque bebeu. Não existem limites de passamento quando se trata de um homem, então, miga, sua loca, pra que riscar uma linha até onde pode ir sua colega?
Empodere-se, miga. Mas ajuda a miga a se empoderar também. Não a diminua, nem que seja pelo gostinho sacana de entortá-la para parecer maior. Miga, isso é loucura. Não diga para a miga que você supervisiona que ela tem que se arrumar mais, porque do jeito que anda vai perder o namorado. Não tem a ver com maquiagem, tem a ver com relacionamento. Se para ele falta maquiagem, miga, é um problema muito sério dele. Não tem que ser seu. Miga, isso não pega bem nem como miga, nem como miga que acha o feminismo o máximo. No facebook.

Facebook. Da Página: Empodere duas mulheres
Não diz que ela merece (o que quer que seja), miga. Não faz isso comigo. Ela não merece, eu não mereço, você não merece, ne…

Amores antigos não hão de vingar

Mortos não servem de ressuscitar, assim como amores antigos não hão de vingar. São projetos falhos, plantas de casas desordenadas, inimigos jurados de nascença. Não adianta embranquecer as paredes, trocar os móveis de lugar, deixar de procrastinar. Amores antigos não se leem. Já morrem morridos de matar. Amores antigos nem vão durar. Amores antigos não dão certo em 2013, nem em 2014, muito menos em 2015. Não sobrevivem nem regados a café, a chá, a cachaça. Amor antigo se rechaça. Amores antigos não são outros nem depois de três maratonas. Não há fôlego, repele-se. Amores antigos não de louça, são madeira de demolição. Quando teima em brotar, feito inço, na teimosia de quaisquer amantes, não há valente que não se pele diante dos que se consomem. Chama bruta do querer, flor lilás de fenecer. Amores antigos são aquele vestido velho que se a gente não doa para a caridade acaba usando. E se arrependendo. Amores antigos são capazes de rasgar no meio do compromisso. Cedem aos remendos. Manc…

Dos maiores clichês das minhas consolações

Sempre soube reconhecer um abraço de amor. E quando as vi abraçadas ali no meio da escadaria, atravancando meu caminho, sabia que era amor. Outros poderiam xingá-las em alta voz ou pensamento. Estavam atrapalhando quem subia à Consolação. Na cidade louca da pressa, no pico da hora, no fluxo dos sentidos. Dos dois lados da escada, qualquer um que subisse ou descesse se depararia com elas. Tropeçaria nelas. Não tive tempo de me incomodar. Porque era abraço de amor. Elas paralisadas, tão conectadas que me deu vontade de me abraçar. Não era um abraço de quem se atreve a agarrar o ser amado instintivamente e dizer que o ama. Era um enlace de despedida. Provável que uma subisse a Consolação, a consolação onde terminam todos os amores que começam no Paraíso da Pauliceia absurda. A outra decerto desceria ao subsolo, à passagem subterrânea onde se confundem os livros do sebo, as obras de arte, a música clássica, o mendigo acolhido. Uma certeza tive. As duas, qual fosse a direção, desceriam ao…

A gente vai porque sabe que tem para onde voltar

Não estou em Pasárgada, mas sou mesmo amiga do Rei. Ou, melhor, sou filha do Papai Noel. E por mais que essa sentença não faça sentido para quem não saiba a profissão do meu pai, basta saber que aqui passo bem. Passo os dias como num reino. Um reino do qual debandei há muitos anos e, nos últimos, tenho aparecido só de relance. Venho pingada. Nunca mais desfiz minhas malas. Em cada passagem, uso o que preciso de usar e deixo a mala de canto, esperando ser enchida de novo para partir. Nunca mais fui vivente, somente hóspede. No entanto, em cada visita me sinto inteira dessa casa, das estantes, dos tacos no chão. Afinal, também são minhas as fotos nas paredes. São meus os livros e trapos que larguei para trás, sou dona até de alguns estragos nas paredes. Uma amiga me diz que a gente faz as loucuras que faz por aí porque sabe que tem para onde voltar. Essa é a definição mais bonita que tenho para porto seguro. A gente se joga no mundo sabendo que se o mundo não for legal com a gente se…

Ainda?

Um amigo foi comprar cápsulas de café e, na hora de pagar, perguntou quais seriam as formas de pagamento. Considerando que comprou várias e que o preço não é nem um pouco baixo, quis saber como amenizar o rombo. A atendente lhe disse que poderia parcelar no cartão, em até dez vezes. “Mas pense bem. Você vai pagar CAFÉ em DEZ vezes?”, ela desafiou. Ele me contou essa história para relacionar café com sofrimento. E desde então eu venho pensando carinhosamente sobre todas as contas que parcelei. Sempre achei estranho quem pagasse almoço no cartão de crédito. Por mais caro que o almoço seja. Porque o prazer de sentar-se em um belo ambiente, de cheirar o prato e adivinhar os apetitosos ingredientes, de saborear cada pedacinho, tudo isso é no instante. Tudo isso é até bem efêmero. Por que deixar para pagar isso tanto tempo depois? Fico pensando o mesmo dos fracassos, das derrotas, dos desencantos. Às vezes a dor é tanta e a gente não consegue sofrê-la à vista, mesmo que haja 10% de descont…

De onde vim

Para um nômade, pergunta pior não tem que: “De onde você é?”. Acostumado a ver o chão de passagem, e não sob a insígnia de raiz, aquele que viaja e pouco para tem motivo de sobra para querer adiar a resposta. “É uma longa história”, geralmente se segue. Pois para mim, que nem venho de tantos lugares palpáveis, mas tantos e tantos imaginados, a pergunta certa não devia ser de onde sou, porque minha identidade está perdida num jogo de espelhos. Devo responder, sim, “de onde você vem?”. Porque eu venho. Venho, esse movimento sem assinalar direito ponto de partida. Venho de uma terra que ficou etérea nos meus sentimentos, presa num canto chamado saudade. Nem sempre saudade doída. Às vezes só saudade. Venho de um lugar com campos a perder de vista e árvores de raízes tão grossas que é difícil entender essa falta de pertencimento. Venho de um tempo que era meu camarada. Que não me pedia para ser ou ir, ele só passava. Suave, tão suave como aquelas tardes. Aquelas que se perderam no meu in…

Os jardins que não amei

Minha amiga posta uma foto de um de seus jardins de apartamento que não deram certo. A foto me transporta na hora para todas as minhas plantas mortas, jogadas, não sem dó, em sacolas de lixo e despejadas rápido na lixeira mais próxima. Para esquecer.
Dizem que quando a gente não cuida bem de uma planta, fica difícil manter um bom relacionamento amoroso. Falo isso para minha amiga e ela quase morre. Assim como ela, não sou boa com tentativas de jardins. Já matei um sem-fim de plantas, nunca levei adiante o plano da horta e, no frondoso jardim da casa materna, o máximo que contribui foi cortando a grama (nem sempre linear).
Penso que a relação entre jardins e amores tenha a ver com o cultivo. E cultivo, com paciência. Nas minhas bagagens lembro-me sempre de plantas já feitas, já floridas, só devendo ser regadas e contempladas. Mas cuidar parece tão obscuro... Minha tentativa atual é um vaso de pimenteira que nem sempre sei se está morrendo. Às vezes eu fico na sala observando o vaso, es…

Confraria das mulheres incríveis

Andava pela rua de casa esses dias, rodando minhas chaves entre os dedos. Nesse pequeno movimento, dei-me conta do quanto me é importante carregar essas chaves. Sei que em qualquer casa que se preze cada integrante tem o seu próprio chaveiro, mas, para mim, as chaves em mãos representam o controle da minha vida. Minha autonomia como mulher, independente, que paga as contas da casa e tem de resolver tudo, de um jeito ou de outro. Minha família mora há quase 1.000 quilômetros de distância. Eu os vejo duas vezes por ano, com sorte uma vez a mais que isso. Tenho aqui em São Paulo uma lista gigante de amigos, de todas as tribos e religiões, de modo que nunca me sinto sozinha na cidade tão grande como a lista de amigos. Na cidade que escolhi para mim. Tenho um emprego, uma rotina. Tenho problemas que escapam a essa rotina. Da geladeira que quebra, dos serviços que contrato e descontrato, das roupas que estendo no varal, no varal que cai, dos produtos que preciso repor nos armários. É mais …

Um livro carregado de ausências e silêncios

Quando eu vi o Valter Hugo Mãe, ao vivo, a poucos metros de mim, não sabia ainda que aquele livro que eu carregava na bolsa era sublime. Quando eu abracei o Valter Hugo Mãe depois da fala, encontrando-o no caminho que ele percorria até a mesa de autógrafos, não tinha noção do quanto o seu livro me abraçaria por noites e noites a fio. o livro que eu ganhei quando chorava. Eu estava com “O filho de mil homens” na bolsa, mas o livro ainda não estava em mim. Hoje está. Quero eternizar esse livro na minha memória, no meu caminhar, em todos os meus dias. Quero carregar a certeza desse livro comigo. Porque o que ficou de mais bonito, entre todas as bonitezas das páginas que li, foi a certeza do amor. Com “O filho de mil homens”, aprendi que não é feio se ter esperança. A esperança é para se carregar como se carrega um livro sublime na bolsa. É algo capaz de preencher de felicidade sem razão de ser. Ler esse livro foi como fazer aniversário todo dia. Aquela certeza de que há vida, que há enc…

Se hace camino al andar

Meu terapeuta atende numa casinha muito aconchegante, que fica em uma rua cheia de árvores frondosas, flores bem cuidadas e quase nenhum barulho. Para chegar até lá, saio do metrô e entro em uma ruazinha igualmente fofa. Nessa ruazinha está a casa onde funciona uma empresa na qual trabalhei. Meu primeiro emprego em São Paulo, dois antes do atual.
Toda semana, na ida ou na volta da terapia, passo em frente a essa casa, uma construção portuguesa, bem antiga, mas muito bem conservada. É cheia de detalhes, caprichos. Fiquei mais de um ano e meio lá e não me lembro de uma semana sequer sem um pedreiro, um jardineiro, um marceneiro, um decorador, alguém executando alguma transformação naquele espaço, pequeno, até, considerando as tantas reformas ininterruptas.
O jardim é um espetáculo à parte. Mudas de flores escolhidas a dedo, arbustos podados irritantemente retos, pedrinhas bem dispostas, calçadas sempre muito bem varridas, uma fonte, um jardim vertical, água da chuva captada por um siste…

Os enlutados de amor

Os enlutados de amor se cruzam nas esquinas de suas dores e se cumprimentam em silêncio, carregando ossos de seus ancestrais em sacos de estopa. Como quem arrasta pedaços de passado sacolejando em suas costas, enervados pelo barulho provocado pelas suas bagagens. Não aprenderam nada com suas malas remendadas, esqueceram tudo ao vir um novo amor. Os enlutados de amor não aceitam clichês nem menores amores. Que era melhor agora que depois. Que não era para ser, quem atestou isso e reconheceu firma? Que sairão maiores depois dessa. E que vai passar. “Um samba popular”. Os enlutados de amor sabem o quanto é ser cantor impopular nas timelines. Quem sangra a dor em versos doídos e para-choques das fossas por uma semana, ao final da qual escutam: ainda está nessa? Vai passar. É carnaval. É carnaval, é carnaval. Os enlutados de amor são aqueles feridos de guerra que percorrem distâncias absurdas após perderem um de seus membros. Não gritam, não desesperam. Apenas cumprem o expediente, mesmo …

Instasize

Se a foto não cabe no quadradinho pré-destinado, merece ser publicada?
Se o instante não cabe na dor de sentir, merece ser vivido?
Se o sentimento não cabe no tempo da espera, merece ser pingado?
Se as perguntas não cabem no possível, merecem ser marteladas?
Se a foto em preto e branco não cabe na moldura, merece ser exposta?
Se a ferida não cabe na cicatriz, merece ser chorada?
Se as letras não cabem no espaço predestinado, merecem ser lidas?
Se as expectativas não cabem no oráculo, merecem ser frustradas?
Se não mereço, não caibo?

Presságio

Dez dias antes de perder um amor, comprei duas taças de cristal. Para receber o vinho, para recebê-lo em meus braços. Trouxe as taças com carinho e cuidado. No balanço do caminhar, uma se encostava na outra, mas protegidas estavam pelos seus invólucros. Pelos receios comuns do início do amor. Em casa, em cima da pia, em silêncio, ouvi. O choque. Uma se quebrou. A outra permaneceu intacta. Dez dias antes de perder meu amor, uma parte do par se quebrou. Não foi a bola, foi a taça de cristal que me trouxe o prenúncio. Hoje tenho apenas uma taça. Eu devia bem ter desconfiado.

Da natureza das coisas que terminam

"A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama" (Victor Hugo)

Querida São Paulo,
Hoje o ano recomeçou para mim. Por coincidência, junto com nossos aniversários – o seu e o meu, aqui. Por coincidência, coloquei hoje o mesmo vestido que vesti da última vez que o ano começou. Há exatos 25 dias, eram outros sonhos, outras esperanças, outros os sentimentos. Como é comum no dia em que comemoramos a minha chegada em suas paragens, revejo a minha relação contigo, cidade pulsante-fria, cidade solar-nublada. Meu paradoxo preferido. Por coincidência, meu recomeço de ano foi paradoxal. De tanto esperar vida nova, veio a morte, racional ambivalência. De tanto esperar recomeço, veio fim. Taxativo, calculado, assinalado. De tanto esperar volta, veio corte. Reto, seco, uniforme. Sem volta. No dia do meu recomeço perdi um amor. Na perda, no fim, na morte, no corte, há sempre um recomeço. Um trem que chega é o mesmo que parte. Um encontro, ainda assim é uma despedida. O não perte…