Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Fevereiro, 2015

Um livro carregado de ausências e silêncios

Quando eu vi o Valter Hugo Mãe, ao vivo, a poucos metros de mim, não sabia ainda que aquele livro que eu carregava na bolsa era sublime. Quando eu abracei o Valter Hugo Mãe depois da fala, encontrando-o no caminho que ele percorria até a mesa de autógrafos, não tinha noção do quanto o seu livro me abraçaria por noites e noites a fio. o livro que eu ganhei quando chorava. Eu estava com “O filho de mil homens” na bolsa, mas o livro ainda não estava em mim. Hoje está. Quero eternizar esse livro na minha memória, no meu caminhar, em todos os meus dias. Quero carregar a certeza desse livro comigo. Porque o que ficou de mais bonito, entre todas as bonitezas das páginas que li, foi a certeza do amor. Com “O filho de mil homens”, aprendi que não é feio se ter esperança. A esperança é para se carregar como se carrega um livro sublime na bolsa. É algo capaz de preencher de felicidade sem razão de ser. Ler esse livro foi como fazer aniversário todo dia. Aquela certeza de que há vida, que há enc…

Se hace camino al andar

Meu terapeuta atende numa casinha muito aconchegante, que fica em uma rua cheia de árvores frondosas, flores bem cuidadas e quase nenhum barulho. Para chegar até lá, saio do metrô e entro em uma ruazinha igualmente fofa. Nessa ruazinha está a casa onde funciona uma empresa na qual trabalhei. Meu primeiro emprego em São Paulo, dois antes do atual.
Toda semana, na ida ou na volta da terapia, passo em frente a essa casa, uma construção portuguesa, bem antiga, mas muito bem conservada. É cheia de detalhes, caprichos. Fiquei mais de um ano e meio lá e não me lembro de uma semana sequer sem um pedreiro, um jardineiro, um marceneiro, um decorador, alguém executando alguma transformação naquele espaço, pequeno, até, considerando as tantas reformas ininterruptas.
O jardim é um espetáculo à parte. Mudas de flores escolhidas a dedo, arbustos podados irritantemente retos, pedrinhas bem dispostas, calçadas sempre muito bem varridas, uma fonte, um jardim vertical, água da chuva captada por um siste…

Os enlutados de amor

Os enlutados de amor se cruzam nas esquinas de suas dores e se cumprimentam em silêncio, carregando ossos de seus ancestrais em sacos de estopa. Como quem arrasta pedaços de passado sacolejando em suas costas, enervados pelo barulho provocado pelas suas bagagens. Não aprenderam nada com suas malas remendadas, esqueceram tudo ao vir um novo amor. Os enlutados de amor não aceitam clichês nem menores amores. Que era melhor agora que depois. Que não era para ser, quem atestou isso e reconheceu firma? Que sairão maiores depois dessa. E que vai passar. “Um samba popular”. Os enlutados de amor sabem o quanto é ser cantor impopular nas timelines. Quem sangra a dor em versos doídos e para-choques das fossas por uma semana, ao final da qual escutam: ainda está nessa? Vai passar. É carnaval. É carnaval, é carnaval. Os enlutados de amor são aqueles feridos de guerra que percorrem distâncias absurdas após perderem um de seus membros. Não gritam, não desesperam. Apenas cumprem o expediente, mesmo …