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Os enlutados de amor

Os enlutados de amor se cruzam nas esquinas de suas dores e se cumprimentam em silêncio, carregando ossos de seus ancestrais em sacos de estopa. Como quem arrasta pedaços de passado sacolejando em suas costas, enervados pelo barulho provocado pelas suas bagagens. Não aprenderam nada com suas malas remendadas, esqueceram tudo ao vir um novo amor. Os enlutados de amor não aceitam clichês nem menores amores. Que era melhor agora que depois. Que não era para ser, quem atestou isso e reconheceu firma? Que sairão maiores depois dessa. E que vai passar. “Um samba popular”. Os enlutados de amor sabem o quanto é ser cantor impopular nas timelines. Quem sangra a dor em versos doídos e para-choques das fossas por uma semana, ao final da qual escutam: ainda está nessa? Vai passar. É carnaval. É carnaval, é carnaval. Os enlutados de amor são aqueles feridos de guerra que percorrem distâncias absurdas após perderem um de seus membros. Não gritam, não desesperam. Apenas cumprem o expediente, mesmo lhes faltando pedaços. Os enlutados de amor pedem pão na chapa e uma média com dor e para viagem, por favor. Rasgam seus retratos para não continuar vivendo em pensamento. São enlatados, sofrimento em conserva. Congelados e delivery. Vivem suspensos no esgotamento de suas tentativas. Nas horas revisitadas sempre e todo o dia, infinitas e repetidas vezes, diariamente às seis da tarde. A Voz do Brasil. Os enlutados de amor são mais dramáticos que O Guarani. Mais previsíveis que Peri e Ceci. Os enlutados de amor querem morar em jazigos de corpos já exumados, querem respirar ares mofados, querem moléstias não inventadas para justificar. Não acreditam em horóscopos ou cartas de tarô que lhe dizem nada menos que “Ele voltará”. Os enlutados de amor são Peixes, Luas em Câncer, Ascendentes em Escorpião.  Navegam em mares à deriva de peixinhos afogados em medo. Medo de que “Ele nunca voltará”. Os enlutados de amor não são os versos todos terminados em proparoxítonas, não seu Buarque. Nem os matemáticos acordes clássicos. Tampouco os encadeamentos perfeitos de Olavo Bilac. Os enlutados de amor têm um pôster do Vinícius de Moraes, ouvem Fagner, fazem deferência a Waldick Soriano. “Volta, meu amor, fica comigo, não me desprezes, a noite é nossa e o meu amor pertence a ti”. Nas profecias dos loucos da Praça da Sé, às seis da tarde, os enlutados de amor passam e não param, membros mutilados sem pedir socorro. Não dão a mão a quem lhes decifra porque têm medo que o luto se esgote. Os enlutados de amor estendem a mão para os santinhos de promessas, das amarrações definitivas. Os enlutados de amor vestem terno e Bíblia, e gritam essa trilha. “Ele voltará! No terceiro dia, Ele voltará!”

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