Se hace camino al andar

Meu terapeuta atende numa casinha muito aconchegante, que fica em uma rua cheia de árvores frondosas, flores bem cuidadas e quase nenhum barulho. Para chegar até lá, saio do metrô e entro em uma ruazinha igualmente fofa. Nessa ruazinha está a casa onde funciona uma empresa na qual trabalhei. Meu primeiro emprego em São Paulo, dois antes do atual.
Toda semana, na ida ou na volta da terapia, passo em frente a essa casa, uma construção portuguesa, bem antiga, mas muito bem conservada. É cheia de detalhes, caprichos. Fiquei mais de um ano e meio lá e não me lembro de uma semana sequer sem um pedreiro, um jardineiro, um marceneiro, um decorador, alguém executando alguma transformação naquele espaço, pequeno, até, considerando as tantas reformas ininterruptas.
O jardim é um espetáculo à parte. Mudas de flores escolhidas a dedo, arbustos podados irritantemente retos, pedrinhas bem dispostas, calçadas sempre muito bem varridas, uma fonte, um jardim vertical, água da chuva captada por um sistema artesanal, vasos com espécies raras. Costumava brincar que o jardim era uma versão eternamente beta, pois meu chefe estava sempre pedindo para mudar alguma coisa, acrescentar, jogar fora, de acordo com seus caprichos. Toda segunda-feira era uma nova surpresa. Acho que no fundo tudo na casa era assim, a estabilidade era um incômodo às vistas impulsivas, perfeccionistas e cheias de vontades do gran senhor.
Ainda hoje, quando passo pela casa, vejo que as reformas continuam. Tem uma sala a mais sendo construída, um caminhão sempre descarregando alguma coisa, um grupo de pedreiros trabalhando insistentemente. Como passo no sábado, raramente cruzo com colegas antigos, ou mesmo meus antigos chefes. Mas depois que eu saí, muita coisa mudou. Além das reformas eternas, muita gente da minha época saiu para outros rumos, seguindo mais ou menos essa renovação visual permanente.
O fato é que toda semana eu passo pela casa e ultimamente tenho olhado mais para ela. A casa nunca é a mesma. Nesse esforço contínuo de renovação, para saciar desejos incontroláveis de atingir a perfeição, a casa muda sempre, o tempo todo.  Mas também sou eu que mudo. A cada vez que desço ou subo a rua, sou outra. À medida que o tempo vai passando, minha distância com o período da minha vida em que eu passava mais de um terço do meu dia ali se torna maior. E, consequentemente, em minha vida esse período vai se tornando menor. Embora esteja bem próxima da casa (pelo menos uma vez por semana), estou cada vez mais distante dela.
A casa representa o lugar que abrigava a antiga Tatiana. E, cada vez que meu olhar repousa sobre ela, a casa, é outra Tatiana a olhar. O que enxergo, nessa distância proporcionada pelo tempo e pela proximidade propiciada justamente pela minha terapia, é que tudo que passei ali está situado num ponto fixo do meu caminho. Vivi ali algumas das minhas piores angústias. Dilemas profissionais, crises de identidade, medos, repulsas, raivas controladas, exacerbadas. Derramei muitas lágrimas nesse jardim tão bem cuidado. Algumas tristezas nada tiveram a ver com o trabalho em si, nem com ninguém dali de dentro, mas o fato é que essas consternações marcaram o período em que ali trabalhei.
Mesmo sendo eu que pedi demissão, para ir para outro emprego, poderia ainda sim olhar para a casa com raiva. Com aquela sensação incômoda quando vemos a cicatriz daquilo que nos feriu. Aquele momento em que a gente forçadamente precisa se lembrar de algo doído que tivemos que viver. Poderia, ainda, olhar para a casa com aquele olhar arrogante de quem costuma dizer que agora está muito melhor. A menina que gesticula exageradamente com o novo namorado, esfregando-o na cara do anterior que a deixou.
Mas, sabendo que ali não vivi nem um período ruim nem um período bom, julgado assim, de forma categórica, meu olhar sobre a casa recai sobre a certeza apenas da constatação do caminho. Do meu caminho. Aquele que não é errado, nem certo, é o caminho cheio de erros e acertos e cheio de dramas e silêncios, pausas e perdas, gritos e retomadas, romances e lágrimas, ganhos e palavras. O caminho que eu percorri, cheio de escolhas. Ter trabalhado ali fez parte de um caminho que até hoje sigo, sem saber muito no que vai dar. Cada vez que desço ou subo a rua, não sei bem onde precisamente estarei. A cada visita ao meu autoconhecimento, não sei bem no que vai resultar.
Olhar para a casa nessa perspectiva um pouco mais madura me fez repassar na mente também outros dramas passados. Outros dilemas profissionais, murros em pontas de facas, pessoas por quem sofri, finais, rompimentos, derrotas, casas perdidas, empregos recusados, amigos distantes, coisas que deixei para trás. Sentimentos doídos naqueles momentos. Mas que hoje não se tornam menores pela distância temporal. Tornam-se pequenas partículas, pequenas pelo conjunto que formam com outros fatos e outras pessoas e outras vitórias e ganhos e outros amores, empregos e outros aprendizados. O conjunto que forma esse caminho.
O que procuro saber, no caminho metafórico até a terapia, é quem eu sou. Apesar de que, um pouco como a Alice, eu saiba quem eu sou pela manhã, mas depois mudo muitas vezes desde então, percorro uma busca nesse caminho. Procuro, no caminhar, encontrar meu caminho, muito embora eu me veja envolta muitas vezes em neblina e sem bússola. Resta-me, então, reconhecer que não há um caminho, uma receita. O caminho se faz ao andar. Golpe a golpe, verso a verso. Não é também nenhum Deus dará. O caminho se faz sabendo para onde se está indo. Como um mapa da intuição.
Caminante, no hay camino. Hay dirección.

“- Você poderia me dizer, por gentileza, como é que eu faço para sair daqui?
- Isso depende muito de para onde você pretende ir – disse o Gato.
- Para mim tanto faz para onde quer que seja... – respondeu Alice.
- Então, pouco importa o caminho que você tome – disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue em algum lugar... – acrescentou Alice, explicando-se melhor.
- Ah, então certamente você chegará lá se continuar andando bastante... – respondeu o Gato.”
(Alice no País das Maravilhas, Lewis Carrol)

“Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
‘Caminante no hay camino,
se hace camino al andar…’
Golpe a golpe, verso a verso…”
(Antonio Machado, Caminante no hay camino)

1 comentários:

{ Márcio Luís } at: 16 de fevereiro de 2015 09:32 disse...

Lindo texto! Sempre digo que amo viajar pra qualquer parte com um texto, num blog assim! Tati... Aproveitando que tô por aqui... Deixa eu perguntar:Você não vai mais escrever no Blog das 30 Pessoas? Sou seu fã lá também! Bjo e tudo de bom!

 

Copyright © 2010 • ::: salto baixo • Design by Dzignine