Um livro carregado de ausências e silêncios


Quando eu vi o Valter Hugo Mãe, ao vivo, a poucos metros de mim, não sabia ainda que aquele livro que eu carregava na bolsa era sublime. Quando eu abracei o Valter Hugo Mãe depois da fala, encontrando-o no caminho que ele percorria até a mesa de autógrafos, não tinha noção do quanto o seu livro me abraçaria por noites e noites a fio. o livro que eu ganhei quando chorava.
Eu estava com “O filho de mil homens” na bolsa, mas o livro ainda não estava em mim. Hoje está.
Quero eternizar esse livro na minha memória, no meu caminhar, em todos os meus dias. Quero carregar a certeza desse livro comigo. Porque o que ficou de mais bonito, entre todas as bonitezas das páginas que li, foi a certeza do amor. Com “O filho de mil homens”, aprendi que não é feio se ter esperança. A esperança é para se carregar como se carrega um livro sublime na bolsa. É algo capaz de preencher de felicidade sem razão de ser. Ler esse livro foi como fazer aniversário todo dia. Aquela certeza de que há vida, que há encontro, que há boniteza. Aquele caminhar pela rua de todo dia sabendo-se único e especial. Sim, uma vez por ano me dou esse presente, essa esperança.
Cada página lida foi feita de dezenas de frases grifadas em pensamento. Frases não, versos. O romance é tão poesia que parece ter sido declamado. Em alguns momentos de leitura frenética, eu sentia que ele, ao contrário, tinha sido despejado. Com ardor. Imaginei um Valter Hugo Mãe inteiro de poesia, com bonitezas acumuladas de um jeito tão ofegante, que seria capaz de iluminar um mar inteiro. E aí, incapaz de dar vazão a toda a graça do incapaz de ser dito, metralhava com palavras um sem fim de poesias, de esperança.
Imaginei ainda um Valter desajustado no mundo, sozinho na praia, querendo não ser só. E para não ser sozinho resolveu ser todos e escreveu o livro mais exultante que poderia ter escrito. O livro de todos os homens. O livro que eu queria ter lido sentada na praia, as visíveis e as imagináveis. O livro que me preencheu como mar de um afogado.
Desajustada como sou, conheci na lata todos os perdidos e mal-queridos do mundo imaginário de praia e campo. Brinquei com eles desde criancinha. E entre os estropiados eu me encontrei. Entre aquela lama incapaz de gerar colorido, eu me vi. Naquele bando de gente silenciosa, doente, perdida e sozinha com as profundezas do espírito, eu fui abraçada. Eu sonhei. Eu rezei. Eu sussurrei versos em voz alta. Eu mal contive a minha esperança.
Chorei “O filho de mil homens” por dias. Lia antes de dormir, soluçava abraçada no travesseiro. Lia no horário de almoço, chorava borrando a maquiagem. Lia no metrô, na calçada, na sala de espera. Chorava sem medo. Em cada lágrima brotada, uma esperança ardia.
O livro tem tanta metáfora que explica o mundo em 200 páginas. Poetiza a tristeza, a morte, o preconceito, o desencanto. Mas ele versifica o encontro. O momento em que duas almas se tateiam no escuro e a vida se torna tão devota desse unir-se que parece explodir. Todo encontro é uma esperança. A beleza que carrega aquele que sabe que há de ser. O caminhar frente ao nevoeiro, firme, perdido, mas se sabendo caminhante. Ler esse livro é apostar num caminho. E um caminho de poesia é tão lindo que abriga erva daninha e espinho.
E, imaginem só, um livro de tanta lindeza ainda abarcou o sofrimento. Ainda doída, chorei feito criança quando o pescador – de sonhos, de gente, de esperança – reconheceu que a gente tem que nutrir carinho pelo sofrimento, pelo sofrimento em que a gente construiu uma felicidade. Imagina pensar em sofrimento como terraplanagem? Um sofrimento tão fundamental como um pilar. Pilar de lindeza. Nunca tinha eu bem pensado, mas não é possível desprezar algo que nos fez mudar, ser feliz. Saber-se feliz é ter se reconhecido na dor, algum dia. A dor é a nossa referência. Também está no caminho do final feliz. Ou no feliz de agora, de todo dia. A felicidade também abraça a decadência. Mas nunca a falta de esperança. E quem diria, Valter me fez querer ter um dia saudade do sofrido de hoje. De ter chorado hoje. Da dor de hoje. Porque o livro, como disse, é todo certeza. E no sofrimento também há certeza, confiança. Em um mundo de tanta ausência, de tanta pergunta, confiar já é a resposta.
Eu nunca serei capaz de explicar o que esse livro mexeu em mim. Na mesma janela que o pescador abria para o mar, e o mar nele, esse punhado de beleza me abriu um monte de silêncios e a ausência do não sentir. Porque em cada letra eu senti com força. Pulsou em mim beleza e confiança, que terminavam em ternura, quase sempre. Pelos perdidos, pelos pontos, pelos tropeços, pelos lascados, pelos órfãos, pelos adotados. Por mim.
Há muito amor no mundo. Há delicadeza em ser filha. Sou filha de um milhão de histórias, de um mar de esperança, de um milhão de milagres. Sou capaz de igualmente gerar um infinito de sentidos, de ser mãe de um sem fim de felicidade. Há muita esperança no mundo. E há muito amor em mim.



1 comentários:

{ Gabriela Lopes } at: 6 de setembro de 2015 22:11 disse...

esse livro é tudo isso mesmo. me identifiquei

 

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