Os jardins que não amei

Minha amiga posta uma foto de um de seus jardins de apartamento que não deram certo. A foto me transporta na hora para todas as minhas plantas mortas, jogadas, não sem dó, em sacolas de lixo e despejadas rápido na lixeira mais próxima. Para esquecer.
Dizem que quando a gente não cuida bem de uma planta, fica difícil manter um bom relacionamento amoroso. Falo isso para minha amiga e ela quase morre. Assim como ela, não sou boa com tentativas de jardins. Já matei um sem-fim de plantas, nunca levei adiante o plano da horta e, no frondoso jardim da casa materna, o máximo que contribui foi cortando a grama (nem sempre linear).
Penso que a relação entre jardins e amores tenha a ver com o cultivo. E cultivo, com paciência. Nas minhas bagagens lembro-me sempre de plantas já feitas, já floridas, só devendo ser regadas e contempladas. Mas cuidar parece tão obscuro... Minha tentativa atual é um vaso de pimenteira que nem sempre sei se está morrendo. Às vezes eu fico na sala observando o vaso, esperando que ele me devolva um sinal milagroso – “sim, está bom de água”, “tire-me do deserto dessa janela, por favor!”, “onde você esteve nos últimos dias? quase morri de sede!”. A planta não me devolve nada e, apesar de não ressecar, fico em dúvida se ela está feliz.
Teimo bravamente em não tirar uma foto do vaso e enviar para minha mãe – a melhor jardineira da vida – para perguntar se está tudo certo. Insisto em cultivar a minha percepção, ou meu feeling, que também sabe – ou deveria saber, ou um dia vai aprender – a cuidar.
Lembro-me de outra amiga se queixando que não era boa em fazer bolos e eu devolvendo que essa coisa de ser boa ou não ser não existia. A gente insiste. Foi preciso eu fazer uma porrada de bolos, a maioria pior que sola de sapato, para eu acertar. Para eu ganhar confiança, ganhar uns truquezinhos que só vêm com a experiência, ganhar elogios. Cozinhar, assim como cultivar, também tem a ver com paciência. E não só com os bolos, mas com o arroz e feijão, ou com a carne de panela, foi preciso estar sozinha. Foi preciso estar faminta.
Não sei se minha amiga aprendeu a fazer bolos, mas na arte de cozinhar eu ainda insisto na prática. Hoje sei o meu tanto de salgar, sei os temperos que gosto, os que dão certo. No começo lembro que suava frio quando via na receita a linha quase tão sombria quanto uma sentença: “misture até dar o ponto”. Que ponto é esse, Jesus? Que ponto é esse que é tão subjetivo e tão impreciso para não ser mais detalhado decentemente na receita? Como é que eu vou saber que eu cheguei na porra do ponto, me diz?
Em se plantar também cavo uma prática. Coloco meu vaso de pimenteira na janela onde bate sol e o tiro em momentos aleatórios, quase que como instinto. Despejo água em doses diferenciadas, a depender do humor do dia, o meu ou o da pimenteira. Eu cuido dela mesmo sem receita. Eu inventei um ponto.
Assim como não existia resposta para o ponto da receita, assim como a planta não me diz nada, acho que diante do cozinhar e do cultivar o relacionamento amoroso tem sempre um agravante. Existe um outro. Capaz de esbravejar quando falta água, capaz de assinalar quando se passou do ponto. E é aí que considero os bolos embatumados e as plantas ressequidas nos sacos plásticos o grande estágio.
Ao não amar os jardins, ao não se lançar nos experimentos gastronômicos, mesmo com o prenúncio do desastre, perco, ou perdemos, a enorme oportunidade de viver uma experiência única e no singular. De paciência, de cultivo, de cuidado. De transformação mágica, sensorial, libertadora.
Cozinhamos quase sempre solitários, damos água e amor a uma plantinha recebendo quase que só como recompensa vê-la crescendo saudável. Podemos ganhar elogios com os pratos ou receber corações na foto da plantinha. Mas o ato, assim como escrever, continua solitário. E a surpresa que quase sempre vem com as duas experiências, as intempéries, o aguçamento dos sentidos, o doar-se, mesmo que cozinhando somente para si, são atos de amor. E um grande passo para o cultivo e a sabedoria tão necessários para o se relacionar.
Meu próximo passo é cultivar um novo amor. Já comprei um vaso, dois quilos de terra e algumas sementes. Pedi conselhos para minha melhor jardineira e devo me lançar no desafio. Quero semear para ter a paciência de aguardar meu novo amor nascer e crescer. Para então regá-lo, percebê-lo, vê-lo sempre a se renovar. Se tudo der certo, se meu jardim vingar e florescer, prometo fazer um jantar para comemorar.

Foto da @cristalhui

1 comentários:

{ Patrícia Siqueira } at: 6 de abril de 2015 06:44 disse...

O meu bonsai morreu, fato triste porém comprovante da teoria dos amores :(

 

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