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A gente vai porque sabe que tem para onde voltar

Não estou em Pasárgada, mas sou mesmo amiga do Rei. Ou, melhor, sou filha do Papai Noel. E por mais que essa sentença não faça sentido para quem não saiba a profissão do meu pai, basta saber que aqui passo bem. Passo os dias como num reino.
Um reino do qual debandei há muitos anos e, nos últimos, tenho aparecido só de relance. Venho pingada. Nunca mais desfiz minhas malas. Em cada passagem, uso o que preciso de usar e deixo a mala de canto, esperando ser enchida de novo para partir. Nunca mais fui vivente, somente hóspede.
No entanto, em cada visita me sinto inteira dessa casa, das estantes, dos tacos no chão. Afinal, também são minhas as fotos nas paredes. São meus os livros e trapos que larguei para trás, sou dona até de alguns estragos nas paredes.
Uma amiga me diz que a gente faz as loucuras que faz por aí porque sabe que tem para onde voltar. Essa é a definição mais bonita que tenho para porto seguro. A gente se joga no mundo sabendo que se o mundo não for legal com a gente sempre tem destino certo na passagem. Podemos voltar quando quiser, quando der, sempre tem braços abertos à espera.
Só que quando se tem um porto tão seguro, um lar tão sólido, uma casa tão aconchegante, dentro do coração da gente nenhum lar será lar. Parece que será sempre essa vida pingada, essas casas improvisadas, essas escolhas não tão perenes. Não investimos em nada dentro das nossas próprias casas, como se fôssemos foragidos que podem ter que levantar acampamento a qualquer momento. Dormimos com um olho sempre aberto.
Não há perigo. Há somente o peso de se saber fugida. De ter deixado o lar para trás e não se saber tão digno de fundar outro. No fundo sabemos que, ao sermos donos de outro reino, aqui não seremos mais os escolhidos. Destinados aos agradados, aos pratos feitos para a gente, às opiniões esperadas e ouvidas, à cama pronta com cheiro de alfazema.
Não seremos tanto essa visita importante, que a cada volta leva a mala mais cheia de agrados. Carregamos na mala por quilômetros e quilômetros coisas daqui que poderíamos muito bem encontrar lá. Mas as daqui têm cheiro de mãe, têm recomendação de pai. Têm gosto de herança.

A gente vai porque sabe que tem para onde voltar. E os daqui parecem saber disso. Então, a cada passagem de relance deixam o reino mais acolhedor. Pintam a casa com as cores mais quentes, incensam o lar com a nostalgia da infância, servem os melhores temperos. Dizem sem palavras que aplaudem o voo, mas estão cá embaixo prontos para o retorno. Porque eles sabem que a gente pode voltar. Mas a gente não volta.

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