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Ainda?

Um amigo foi comprar cápsulas de café e, na hora de pagar, perguntou quais seriam as formas de pagamento. Considerando que comprou várias e que o preço não é nem um pouco baixo, quis saber como amenizar o rombo. A atendente lhe disse que poderia parcelar no cartão, em até dez vezes. “Mas pense bem. Você vai pagar CAFÉ em DEZ vezes?”, ela desafiou. Ele me contou essa história para relacionar café com sofrimento. E desde então eu venho pensando carinhosamente sobre todas as contas que parcelei.
Sempre achei estranho quem pagasse almoço no cartão de crédito. Por mais caro que o almoço seja. Porque o prazer de sentar-se em um belo ambiente, de cheirar o prato e adivinhar os apetitosos ingredientes, de saborear cada pedacinho, tudo isso é no instante. Tudo isso é até bem efêmero. Por que deixar para pagar isso tanto tempo depois? Fico pensando o mesmo dos fracassos, das derrotas, dos desencantos. Às vezes a dor é tanta e a gente não consegue sofrê-la à vista, mesmo que haja 10% de desconto. Existem sofrimentos que não permitem abatimento instantâneo. Ou é capaz de a vítima se despedaçar nessa liquidação. O gerente ficou maluco, mas calma. A gente não precisa ficar.
O mais sensato então, é dividir essa dor em parcelas e deixar-se entrar em contato com ela aos poucos. Enquanto vamos curando as feridas, os pedacinhos de sofrer vêm de novo e de novo, como ondas esparsas. A diferença é que a cada uma que chega o caldinho é menor. O que era tão forte que poderia te afogar tempos depois vira uma marolinha. Ficamos mais fortes. Ou aprendemos a nadar.
Pode ser que mais pra frente a gente consiga até adiantar o pagamento de umas parcelas, a fim de amenizar a dívida. Mas na hora de contrair esse financiamento, na hora que o moço uniformizado pergunta, maquininha em punho, se é débito ou crédito, e em quantas vezes, aí, meu amigo, a resposta tem que ser na lata. A resposta tem que ser inteligente.
Nem sempre a gente precisa se endividar por tudo. Tem baques fortes, mas nem por isso a gente parcela. Às vezes chora no travesseiro naquele mesmo dia, ou balança a cabeça na hora e até deixa pra lá. Mas tem dores mais intensas, e aí talvez a gente não tenha energia ou astral suficiente na conta para pagar. Para não debitar as forças destinadas a outras coisas - como trabalhar, tocar a vida, cuidar dos filhos, fazer o curso de inglês - a gente resolve parcelar.
Por quanto tempo será necessário digerir essa dor e zerar essa conta cada um é que sabe. O que tenho aprendido é que não dá para se estender demais. Porque às vezes a gente está lá, deixando de fazer outras coisas, evitando viver a vida para curar uma dor que já deveria ter passado. Estamos lá, meeeeeses depois de um pé na bunda, perdendo preciosos tempos stalkeando a pessoa no Facebook. Ficamos ruminando uma raiva do chefe ou uma humilhação pública por um tempo tão longo que intoxica. A nós mesmos.
Sofrimento parcelado é uma escolha. Não tem consultor de finanças que determine em quantas vezes você tem que financiar cada fracasso. Cada um sabe que suporte tem ou, quem sabe, que suporte decidirá alcançar, para quitar a sua dor. O que não pode é olhar a fatura do cartão e ver que você ainda está pagando por algo que comprou há muito tempo. Procurar nas letrinhas miúdas porque naquele mês a fatura veio tão alta e se deparar com uma dor antiga, que você nem lembra porque comprou. E pior, você ainda está pagando a 8 de 10. “Ainda???”. Ainda.
É frustrante pagar a conta do café por mais tempo do que você consegue se lembrar dele. É incompreensível pagar uma refeição que foi há tanto tempo atrás. É chato estender uma dor por um tempo em que você deveria estar vivendo tantas outras coisas. É triste saber que às vezes a gente sofre picado, porque não se acha capaz de sofrer golpes maiores por vez.

Como anda a fatura do seu cartão?

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