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Dos maiores clichês das minhas consolações

Sempre soube reconhecer um abraço de amor. E quando as vi abraçadas ali no meio da escadaria, atravancando meu caminho, sabia que era amor. Outros poderiam xingá-las em alta voz ou pensamento. Estavam atrapalhando quem subia à Consolação. Na cidade louca da pressa, no pico da hora, no fluxo dos sentidos. Dos dois lados da escada, qualquer um que subisse ou descesse se depararia com elas. Tropeçaria nelas.
Não tive tempo de me incomodar. Porque era abraço de amor. Elas paralisadas, tão conectadas que me deu vontade de me abraçar. Não era um abraço de quem se atreve a agarrar o ser amado instintivamente e dizer que o ama. Era um enlace de despedida. Provável que uma subisse a Consolação, a consolação onde terminam todos os amores que começam no Paraíso da Pauliceia absurda. A outra decerto desceria ao subsolo, à passagem subterrânea onde se confundem os livros do sebo, as obras de arte, a música clássica, o mendigo acolhido. Uma certeza tive. As duas, qual fosse a direção, desceriam ao inferno.
Frida Kahlo, As Duas Fridas, 1939

Depois do abraço derradeiro, inevitável o suplício de todos os finais. Embora carregado da promessa de novas linhas, a letra depois do ponto final tem essa mácula do trágico e da dor de todos os mortos. Já passei por inúmeros desses ciclos e por mais tantos passe, eu sei. Essa dor é igualmente sofrida. A vontade de afundar a cara no prato de sopa e nunca mais voltar. A certeza de que vai passar, mas até lá... Até lá é essa dor tão amarga e tão presente. Tão palpável que poderíamos dar-lhe um nome.
Passei por elas e voltei meu olhar. A menina de frente para mim apertava os olhinhos atrás dos óculos quadrados. Enxerguei ali pairando a dor que já foi tão minha. Quis dizer para ela, para as duas, que ia passar. Eu sei, por mim, por todos, sempre passa. Só que até passar parece que precisamos cumprir antes o itinerário ao inferno. Ganhamos a passagem pessoal e intransferível. O problema é que a viagem é tão filha da mãe que vai fazer esquecermo-nos dela ao virmos um novo amor. Assim, como se ela nunca tivesse existido.

Eu não sei por que insistimos em novos amores reconhecendo todo esse ciclo. Amores acabam sim. Não sei por que não nos alarma uma luz na cabeça, vermelha e piscante, dizendo: foge. Você logo estará às voltas em um passo de dança triste, coreografando lágrimas com a desolação, com a consolação. Eu não sei por que essa luz não acende nunca. Eu só sei reconhecer um abraço de amor. E eu sei que tem a ver com a esperança do eterno. E se ela, a esperança, não der conta, sei que vai passar. Sempre passa.


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