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Se a foto não cabe no quadradinho pré-destinado, merece ser publicada?
Se o instante não cabe na dor de sentir, merece ser vivido?
Se o sentimento não cabe no tempo da espera, merece ser pingado?
Se as perguntas não cabem no possível, merecem ser marteladas?
Se a foto em preto e branco não cabe na moldura, merece ser exposta?
Se a ferida não cabe na cicatriz, merece ser chorada?
Se as letras não cabem no espaço predestinado, merecem ser lidas?
Se as expectativas não cabem no oráculo, merecem ser frustradas?
Se não mereço, não caibo?
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Presságio

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Dez dias antes de perder um amor, comprei duas taças de cristal. Para receber o vinho, para recebê-lo em meus braços. Trouxe as taças com carinho e cuidado. No balanço do caminhar, uma se encostava na outra, mas protegidas estavam pelos seus invólucros. Pelos receios comuns do início do amor. Em casa, em cima da pia, em silêncio, ouvi. O choque. Uma se quebrou. A outra permaneceu intacta. Dez dias antes de perder meu amor, uma parte do par se quebrou. Não foi a bola, foi a taça de cristal que me trouxe o prenúncio. Hoje tenho apenas uma taça. Eu devia bem ter desconfiado.
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Da natureza das coisas que terminam

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"A vida é uma longa despedida de tudo aquilo que a gente ama" (Victor Hugo)


Querida São Paulo,


Hoje o ano recomeçou para mim. Por coincidência, junto com nossos aniversários – o seu e o meu, aqui. Por coincidência, coloquei hoje o mesmo vestido que vesti da última vez que o ano começou. Há exatos 25 dias, eram outros sonhos, outras esperanças, outros os sentimentos.
Como é comum no dia em que comemoramos a minha chegada em suas paragens, revejo a minha relação contigo, cidade pulsante-fria, cidade solar-nublada. Meu paradoxo preferido. Por coincidência, meu recomeço de ano foi paradoxal. De tanto esperar vida nova, veio a morte, racional ambivalência. De tanto esperar recomeço, veio fim. Taxativo, calculado, assinalado. De tanto esperar volta, veio corte. Reto, seco, uniforme. Sem volta.
No dia do meu recomeço perdi um amor. Na perda, no fim, na morte, no corte, há sempre um recomeço. Um trem que chega é o mesmo que parte. Um encontro, ainda assim é uma despedida. O não pertencer é, ainda assim, um pertencer à coisa alguma. Perder alguém é de qualquer forma um encontrar-se. Nem que seja com a própria consciência. Com a ciência de que vai parar de doer. Mas até lá, ah, até lá...
Na atual lembrança de um amor que perdi, vejo-me multifacetada nas relações amorosas que você me deu de presente. Pequenas, quebradas, imaturas, incompletas, insensíveis, a maior parte intocáveis. Todas micropedaços de um espelho estilhaçado. Encontrei-me por um tempo tentando me reconhecer nesses cacos, mas minha identidade nunca estava inteira nesses pequenos reflexos. Tudo era um instante fugaz. Era um pedaço meu ali, outro acolá, nenhum caco traduzia minha inteireza. Razão dos cacos? Provavelmente. Mesmo os maiores me cortaram.
Ao achar que meus amores em ti seriam sempre essa falta de alguma coisa, essa entrega de coisa nenhuma, você decidiu me espantar com um novo embrulho. Recebi esse presente como quem espera pela encomenda de outro continente. Abri o pacote com pressa, tal criança em dia de festa, rasguei o papel e a fita, para dar sorte. Tive.
Vi minha imagem inteira e contínua nesse reflexo tão improvável. Reconheci-me na entrega, no amor, na plenitude. Eu não era a menina da tristeza, eu era, bendita epifania, a mulher que desfruta o amor. Carreguei no ventre não uma criança, mas uma nova certeza. A que a vida não é feita de primeirezas, mas de ultimezas. Porque o último não tem o gosto do desconhecido do início, mas tem o sabor inefável do fim da busca, da espera.
Teu paradoxo foi me transformar em cacos ao arrancar o presente como aquela guitarrinha rosa que meu pai decidiu por bem vender para uma cliente importante, depois de tê-la me dado, lá pelos 7 anos. Não é bem tristeza, não é bem raiva, cidade. É restar sem entendimento. É aceitar sem ter aceitado. É respeitar afogando no peito um mar de amor ainda em mim.
No dia do meu recomeço, comecei um novo bordado. Peguei o ponto final e comecei uma nova linha. Aqui, sou eu escrevendo. Mas lá, a menina das letras, a garota das entranhas, aquela do amor sempre tão bem expressado, ficou muda. Miúda, sem argumentos válidos. Calada. Sem bastar. Insuficiência emocional ambivalente, já que a corredeira de amor ainda rumava turbulenta no curso do rio. Desordem lenta no meu peito, turba que se tornou o leito de meu desassossego.
Quando se rompeu o amor, quando se abortou o sentimento, quando arrancadas todas as esperanças, não morri. Continuo, embora a contragosto, bem viva. Minha tristeza, Caeiro disse bem, é um pôr do sol. Esse crepuscular sentimento anoitecendo em mim conflita, sim, com o ensolarado lá fora. Paradoxal morrer quando há vida, seiva, pulsante. Clichê ser tão paradoxal, Dona cidade. Feio nublar corações em dias tão bonitos.

Não é um bom dia para comemorar. Talvez haja um dia bom para renascer.

De quem ainda te quer bem,

Tatiana


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