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Confraria das mulheres incríveis

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Andava pela rua de casa esses dias, rodando minhas chaves entre os dedos. Nesse pequeno movimento, dei-me conta do quanto me é importante carregar essas chaves. Sei que em qualquer casa que se preze cada integrante tem o seu próprio chaveiro, mas, para mim, as chaves em mãos representam o controle da minha vida. Minha autonomia como mulher, independente, que paga as contas da casa e tem de resolver tudo, de um jeito ou de outro.
Minha família mora há quase 1.000 quilômetros de distância. Eu os vejo duas vezes por ano, com sorte uma vez a mais que isso. Tenho aqui em São Paulo uma lista gigante de amigos, de todas as tribos e religiões, de modo que nunca me sinto sozinha na cidade tão grande como a lista de amigos. Na cidade que escolhi para mim. Tenho um emprego, uma rotina. Tenho problemas que escapam a essa rotina. Da geladeira que quebra, dos serviços que contrato e descontrato, das roupas que estendo no varal, no varal que cai, dos produtos que preciso repor nos armários. É mais fácil administrar tudo isso numa casa de duas pessoas que mal param em casa, mas, lembrando das chaves rodando nos dedos, se não resolvemos (eu e a roommate) essas pequenas pendências do cotidiano, a casa não funciona, a engrenagem da rotina se rompe.
Soma-se aí o trabalho, que sempre traz consigo problemas de toda ordem, probleminhas e problemões, mais o fato de se habitar numa cidade de dimensões intergaláticas, o que torna viver um desgastante diário. Ah, se não fosse aquela cerveja no final da semana, dividida com a amiga que está nesse mesmo barco que você. O barco que incrivelmente nunca afunda, independente das intempéries.
Foi numa mesa de bar com uma amiga que notei o quanto ela era incrível. E o quanto eu possuía amigas e mais amigas incríveis. Claro que tenho amigos e mais amigos também estupendos, mas me detenho às mulheres que, como eu, vivem nessa angustiante rotina de ter que resolver tudo com os picos de humor que lhes são peculiar. A maioria, como eu, rodando as chaves das suas vidas entre os dedos, resolvendo tudo aquilo que teima em dar errado, quebrando as cabeças em seus empregos, engolindo seus sapos diários e dando a cara a sopapos em relacionamentos muitas vezes furados.
Na mesa de bar, ouvindo minha amiga desfiar a longa lista de reclamações, que incluía o fato de não ser respeitada em sua posição no trabalho por ser mulher, lembrei que outra amiga chorava a sem fim ilusão de um amor que passou e não cansava de passar, pisando fundo como que com salto agulha o que restava dela tentando se reerguer das derrotas passadas. E me veio à cabeça que outra amiga, por telefone, ressaltava para mim seus defeitos, tantos, que me restava balançar a cabeça para escapar-me daquela sua imagem torta e lembrá-la das suas incontáveis qualidades, que me fazem admirá-la, sempre e tanto.
Todas mulheres incríveis. Junto com elas vou reunindo na minha lista de amigas outras tantas. Professoras, empresárias, estudantes, jornalistas, advogadas, psicólogas, fotógrafas, bancárias, vendedoras, publicitárias, naturólogas, as que trabalham no negócio da família. Profissionais de sucesso ou ainda juntando trocados para pagar as contas no fim do mês. Mas todas mulheres incríveis. Esposas, namoradas, solteiras, tendo suas crises de relacionamento ou procurando o amor de suas vidas, mesmo que nunca admitam em público acreditar nessas baboseiras. Com espaço vago ou não em seu coração, mulheres incríveis. Lutadoras, grevistas, aquelas que se dedicam a uma causa, a um ideal, aquelas que não conseguem pertencer a grupo nenhum, as que não se engajam, as que veem a passeata de longe, as que erguem cartazes em punho, aquelas que abrem uma ONG, aquelas que têm um objeto de estudo para a vida inteira e são aplaudidas pela dedicação em vida. As que passam a vida inteira buscando o que as move. As que vivem longe da família, as que constroem a própria. As que encontraram o emprego dos sonhos, as que montaram a própria empresa, aquelas que não sabem o que querem e sabem que isso não é vergonha alguma aos 30. Talvez não vão saber a vida toda.
O que há de comum entre as minhas mulheres incríveis? Elas não se dão conta do quanto são incríveis. Do quanto se desdobram pelos dias, do quanto seus insights e sua sensibilidade transformam a vida de quem está perto delas. Do quanto o seu abraço ou a opinião daquele filme que acabou de sair e ela baixou pirata pode fazer outras mulheres incríveis se esquecerem dos seus problemas, mesmo que por umas horas. Não sabem o quanto suas chaves rodando entre os dedos despertam a ira de mulheres que talvez nunca saibam o que é essa autonomia, por terem escolhido caminhos mais fáceis, mas nem por isso passíveis de julgamento. Do quando sua coragem em enfrentar o mundo, ou a rua de casa, seja ela de uma megalópole ou de uma cidadezinha do interior, inspira outras mulheres a rodarem também suas chaves entre os dedos. Do quanto homens que passaram pelas suas vidas, com dor ou não, talvez nunca saberão o que é ter uma delas ao seu lado, transformando a vida deles, como elas transformam as minhas.
Por isso, proponho a Confraria das Mulheres Incríveis. Nessa irmandade se reunirão todas as mulheres que não sabem que são tão estupendas, mas tem o coração maduro e a intuição aflorada para reconhecerem outra mulher exuberante e para fazê-la saber o quanto é grande. Isso porque percebi que as minhas mulheres incríveis são muito boas em reconhecer nas outras as qualidades que não percebem nelas mesmas. Então, nessa Confraria, além de comermos muito chocolate, tomarmos café, gargalharmos um sem fim de barbaridades e desfiarmos todos os assuntos corriqueiros e proibidos em qualquer roda, diremos umas às outras o quanto são especiais. Ao invés de balançar a cabeça negando o elogio, cada uma das mulheres incríveis receberá com deferência o adjetivo que lhe é conferido e se apoderará de suas qualidades. Para sair de cada encontro mais fortes. Mais gratas. Mais incríveis.

Circus Horse Rider, Chagall

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