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De onde vim

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Para um nômade, pergunta pior não tem que: “De onde você é?”. Acostumado a ver o chão de passagem, e não sob a insígnia de raiz, aquele que viaja e pouco para tem motivo de sobra para querer adiar a resposta. “É uma longa história”, geralmente se segue. Pois para mim, que nem venho de tantos lugares palpáveis, mas tantos e tantos imaginados, a pergunta certa não devia ser de onde sou, porque minha identidade está perdida num jogo de espelhos. Devo responder, sim, “de onde você vem?”.
Porque eu venho. Venho, esse movimento sem assinalar direito ponto de partida. Venho de uma terra que ficou etérea nos meus sentimentos, presa num canto chamado saudade. Nem sempre saudade doída. Às vezes só saudade. Venho de um lugar com campos a perder de vista e árvores de raízes tão grossas que é difícil entender essa falta de pertencimento.
Venho de um tempo que era meu camarada. Que não me pedia para ser ou ir, ele só passava. Suave, tão suave como aquelas tardes. Aquelas que se perderam no meu incontrolável querer de liberdade. Venho da vontade pulsante de ser algo além daquelas paredes escritas para mim. Da farmácia que minha mãe esperava eu abrir. Dos rostos conhecidos nos bancos da igreja. Venho da fome de mundo que aquele prato nunca deu conta.
Venho do balançar da rede e do bater de asas de beija-flores que rumavam sempre para outros rumos. Para o Sul, eu pensava. Os beija-flores devem ir para o Sul porque estão sempre com pressa. Eles já têm o norte. Só deve faltar o Sul. Venho desse suspiro de me saber passarinho. Indomesticável. Venho das águas roladas, de chuva ou lágrimas, seguindo impulsos naturais.
Venho às vezes da vontade de voltar. Mãos calejadas, rugas aqui e ali de chorar. De chorar aquela saudade, aquela certeza de que tudo estará tão fotografadamente tão igual como o impresso nas minhas retinas de menina. Tão igual de mim. Venho da face assombrada de quem vem de um lugar pequeno e se vê refletido numa pequenez familiar. Aquele lugar tão circunscrito às nossas lembranças não podem ser a gente todo, arre. Mas é. Ou melhor, mas vem.
Venho dessa inquietude de volta ao mundo, de dar a volta em si mesmo sem sair do lugar. Do lugar comum. Do lugar gigante tão parecido com o de onde eu venho. Venho, ora menina, ora severina. Venho de uma mãe e de um pai que se conheceram pelas janelas, desafiando uns 7 estados e uns metros de altura abaixo. Talvez fosse predestinado, para mim e meus irmãos, ser de onde não sabemos ser. Vim de onde nunca viemos.
Das histórias do mar do Recife, venho da ânsia de querer pegar onda. Venho da lembrança do dia que aprendi a boiar num mar calmo, sem oscilar. Venho do nunca aprender a nadar. Venho dos caprichos, de jardins frondosos, de letras escritas e não enviadas. Venho do frio e do medo da madrugada. Do voltar para casa. Venho da saudade de ter aquele prumo.


Eu venho, venho porque nem sempre me dá coragem de ser. Ser é retrato estanque. A gente é e pronto, coisa chata. Quando a gente vem é diferente. A gente inventa um vir, um ir. A gente inventa que tem compromisso com o balanço. E o vim dá mais amplitude ao coração. O vim não tem certidão. Quando ninguém prova de onde você é, dá mais razão para a gente estender a mão e dizer: “vem também?”
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