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Amores antigos não hão de vingar

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Mortos não servem de ressuscitar, assim como amores antigos não hão de vingar. São projetos falhos, plantas de casas desordenadas, inimigos jurados de nascença. Não adianta embranquecer as paredes, trocar os móveis de lugar, deixar de procrastinar. Amores antigos não se leem. Já morrem morridos de matar. Amores antigos nem vão durar.
Amores antigos não dão certo em 2013, nem em 2014, muito menos em 2015. Não sobrevivem nem regados a café, a chá, a cachaça. Amor antigo se rechaça. Amores antigos não são outros nem depois de três maratonas. Não há fôlego, repele-se. Amores antigos não de louça, são madeira de demolição. Quando teima em brotar, feito inço, na teimosia de quaisquer amantes, não há valente que não se pele diante dos que se consomem. Chama bruta do querer, flor lilás de fenecer.
Amores antigos são aquele vestido velho que se a gente não doa para a caridade acaba usando. E se arrependendo. Amores antigos são capazes de rasgar no meio do compromisso. Cedem aos remendos. Mancham o álbum de tanto folhear.
Em amor antigo não se toca, mesmo com lembrança das melhores. Besteira revirar o que já está para lá. Para o que não haverá. Amores antigos não sobem a serra, só baixam o decreto: não hão de vingar. Amores antigos não se enquadram na lei do que será. Amores antigos não serão futuros, nem escarafunchados pelos escafandristas, revirando a cidade submersa. Amores antigos não reanimam nem com cinema, nem com açúcar, nem com filme brasileiro, nem com Chico. Realidade perversa.

René Magritte, Os amantes, 1928 

Amantes antigos não se tocam, não se veem, não se compreendem. Amores que já foram não salgam nem com suor antigo. Nem com nostalgia daquele perfume. Amantes antigos são cruéis no desatino. Artigo fim, inciso não insista alínea acabou. Não se tocarão, não se verão, não se compreenderão. Lei da vida. Nada de bom acontece quando um amor antigo teima em piscar. 
Não há três Natais que resistam a um amor antigo. Não há Cristo que perdure. Não há manjedoura impassível. Não há delicadeza no afogamento das lembranças. Balé trágico, pássaro de fogo, benção e perdição. Dual, o amor antigo mata por liberdade. Vida e destruição. Nascimento e morte. Amores antigos são como a sorte.

E morrendo aleatório sabe-se semente. Por isso antigo amor a gente planta, mesmo por teimosia, para ver se sabe. Só para dizer que conhece o fim de antemão, película repetida, eu avisei. Amores antigos a gente sabe que não vingam, é regravação. Mas de repente se vê amansando a terra. Jogando água e colocando o vaso meio de lado de novo no sol. Só para ver se, teimando a sorte, floresce diferente.
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Dos maiores clichês das minhas consolações

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Sempre soube reconhecer um abraço de amor. E quando as vi abraçadas ali no meio da escadaria, atravancando meu caminho, sabia que era amor. Outros poderiam xingá-las em alta voz ou pensamento. Estavam atrapalhando quem subia à Consolação. Na cidade louca da pressa, no pico da hora, no fluxo dos sentidos. Dos dois lados da escada, qualquer um que subisse ou descesse se depararia com elas. Tropeçaria nelas.
Não tive tempo de me incomodar. Porque era abraço de amor. Elas paralisadas, tão conectadas que me deu vontade de me abraçar. Não era um abraço de quem se atreve a agarrar o ser amado instintivamente e dizer que o ama. Era um enlace de despedida. Provável que uma subisse a Consolação, a consolação onde terminam todos os amores que começam no Paraíso da Pauliceia absurda. A outra decerto desceria ao subsolo, à passagem subterrânea onde se confundem os livros do sebo, as obras de arte, a música clássica, o mendigo acolhido. Uma certeza tive. As duas, qual fosse a direção, desceriam ao inferno.
Frida Kahlo, As Duas Fridas, 1939

Depois do abraço derradeiro, inevitável o suplício de todos os finais. Embora carregado da promessa de novas linhas, a letra depois do ponto final tem essa mácula do trágico e da dor de todos os mortos. Já passei por inúmeros desses ciclos e por mais tantos passe, eu sei. Essa dor é igualmente sofrida. A vontade de afundar a cara no prato de sopa e nunca mais voltar. A certeza de que vai passar, mas até lá... Até lá é essa dor tão amarga e tão presente. Tão palpável que poderíamos dar-lhe um nome.
Passei por elas e voltei meu olhar. A menina de frente para mim apertava os olhinhos atrás dos óculos quadrados. Enxerguei ali pairando a dor que já foi tão minha. Quis dizer para ela, para as duas, que ia passar. Eu sei, por mim, por todos, sempre passa. Só que até passar parece que precisamos cumprir antes o itinerário ao inferno. Ganhamos a passagem pessoal e intransferível. O problema é que a viagem é tão filha da mãe que vai fazer esquecermo-nos dela ao virmos um novo amor. Assim, como se ela nunca tivesse existido.

Eu não sei por que insistimos em novos amores reconhecendo todo esse ciclo. Amores acabam sim. Não sei por que não nos alarma uma luz na cabeça, vermelha e piscante, dizendo: foge. Você logo estará às voltas em um passo de dança triste, coreografando lágrimas com a desolação, com a consolação. Eu não sei por que essa luz não acende nunca. Eu só sei reconhecer um abraço de amor. E eu sei que tem a ver com a esperança do eterno. E se ela, a esperança, não der conta, sei que vai passar. Sempre passa.


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