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Mostrando postagens de 2016

Das esperanças

Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó. Vai passar. E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento. Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia. Diria isso mesmo depois de ter perdido um ou…

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Para o norte pedido, girassóis

Não sei mais do que sou capaz. Acredito piamente em um esgotamento da fé sobre a raça humana. É possível ter esperança por um período, mas ao final de uma semana, um mês, um ano que seja, sem forças, sem braço, o cansaço toma conta. E não é aquele cansaço físico, nem o mental. Não é aquele cansaço de ter carregado lenha, é o de não saber por que se está procurando o fogo. Parecem esgotadas todas as possibilidades. “Tudo que você podia ser”, sabe quando o Milton canta no som do carro? Tudo aquilo que a gente não é, ainda não foi, é sofrido, mas tudo o que a gente não pode ser mais é arrebatador. É como se ver em um canto da praia, sobre as pedras, e de repente cair a ficha de que aquela imensidão existe, mas não é sua. É inalcançável. Não ser importante, não ser milionário, não gritar a sua voz no mundo. Eu já atendi a todas aquelas obrigações que te ensinam desde cedo. Não pulei nenhuma etapa, estou aqui onde deveria estar, mas não estou. Satisfeita, plena, consciente, bem-sucedida, a…
Sou toda água, mareio nas tuas sem dar pé
Fito o céu me deixando levar, não sei das braçadas
Nesse navegar trajetos são mil, qual futuro
Em meu ventre habitam medos, seis bichos do mar
Um bilhão de peixinhos a me cocegar

O sol a me cegar, custo a ir contra a maré
Prefiro, flutante, desanuviar as borboletas
Pelas mãos carregar as tuas, mas não tenho o rumo
Vou me afastando da terra, parece que ela zomba
Sabe da direção improvável, da tempestade

Não há sentido nessa deriva, torta e flamejante
Até que vejo teu dorso à beira, a me esperar
E me dar a mão, sem entender ou apontar, remar
Os pares, enquanto dupla a caminhada, sabem-se
Mar de amar não tem caminhos, promessa incerta
Vamos lá, amor, se afogar?

Prece de inverno

Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão. Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis. O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.
Desejei aquele cuid…

Meu projeto, meu pedido

São Paulo, meu amor
Completamos cinco anos de namoro. Acho que já te conheço bem. Da mesma forma como você sabe dos meus podres. Já fizemos xixi com o outro junto. Você já me viu dizendo: nunca mais vou beber! Até cruzar com o próximo sábado. Já me viu chorar debaixo dos óculos escuros. E fingir que nada aconteceu. Quando eu vim, meio bocozona de tudo, sua tática foi me encantar, charmosa, envolvente, sedutora, com seus trocentos museus por quilômetro quadrado. Com suas exposições, shows gratuitos, com seus cafés, seus teatros, seus parques sob duas rodas. Tateando meu prazer em ruas estreitas, permeadas por ipês floridos, que cruzadas outras esquinas se transformavam em abrigos de arranha-céus e largas avenidas. Eu também era mais vivaz. Cruzava a cidade por um filme iraniano. Era aquela disposta, alegre, que não me importava com qualquer obstáculo. Você era o meu suficiente. E eu declarava o meu amor aos quatro ventos, sempre pronta a uma nova declaração de bem-querer, a um novo …