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Das esperanças

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Hoje consegui parar em frente ao computador e com um pouquinho de tempo para responder às suas angustiantes letras. Hoje, esperando que você esteja melhor, parei para te escrever que, sim, acredito no amor. Com o tempo, os tombos, os tropeços e as cravadas na saída (qual ginasta olímpica), com as fichas caídas, os choros copiosos e soluçados para os meus travesseiros... Passado tudo isso, posso dizer que, mesmo que mais 200 relacionamentos meu acabem daqui para frente, sim, acredito no amor. Aprendi que o amor não acaba, ele só muda de rosto. O amor é nosso, amiga. A gente entrega para quem estiver mais disposto, para quem estiver atento no lance, para quem se encaixar com a gente. Por enquanto é essa neblina, esse tempo turvo, que parece que não vai desanuviar nunca, mas ó.
Vai passar.
E te diria isso mesmo sem estar em um relacionamento.
Te diria isso numa manhã de fevereiro, antes e depois do carnaval, quando eu ainda nem  o conhecia.
Diria isso mesmo depois de ter perdido um outro amor, que me veio como um rompante e me deixou, lá em janeiro do ano passado.
Te diria isso depois que tomei a decisão de terminar um relacionamento de quase quatro anos, com quem achei que seria pra sempre.
Lembro-me de, logo depois de terminar, sonhar que tinha perdido a bolsa. A sensação era essa mesmo. Perder a bolsa para a gente é perder tudo, os óculos, os remédios, os boletos, a maquiagem. É perder, inclusive, a nossa identidade. E esse é o mais doído. Não ser mais de alguém pode nos fazer se sentir perdidas. Eu me sentia perdida. E depois de colocar a cabeça pra fora daquela piscina de sentimentos confusos e doloridos, tomei fôlego para nadar. Mas não era nada fácil se mover sem saber para onde. Quando eu me reconheci ali, apossada daquele misto de sensações, me senti recomeçando do zero – e, ó, foi foda.
Naquele momento eu não enxergava. Hoje vejo a guinada que minha vida deu, percebo tudo o que mudei ou me fizeram mudar e constato como estou muito melhor. Recomeçar do zero é muito bom.
Pra te falar a verdade, amiga, acredito no amor, sim, mas talvez me escaldei um tanto que hoje não acredite no amor para toda vida. Nem no amor que vem no rosto do outro. Acredito no amor que a gente entrega para o mundo. Sei que é clichê, mas o amor tem várias personas, inclusive o próprio.
Não sei se te expliquei para te confundir, como diria o Tom Zé, mas eu queria mesmo que você acreditasse que é pra valer. Você vai ser feliz. Não vai ser feliz e ‘pá! pronto!’, não vai encontrar a felicidade e nunca mais ter problemas, nunca mais sofrer com términos, mas vai ser feliz. Você já é, mas eu sei que reconhecer isso neste inverno de rejeição e abandono é quase impossível. Saber da felicidade foi uma certeza que me moveu durante um tempo e hoje ela se constitui – também – em estar com alguém, mas mesmo quando eu não tinha eu carregava no peito o atestado de que eu era bem, bem feliz.
Meu amigo me dizia uma frase que acho muito boa. A vida é o que acontece enquanto os problemas acontecem. Sei que é esquisito, mas sempre me trouxe paz pensar assim. A gente tá sempre caindo, em falta, com problemas de toda ordem. Mas em tudo isso há vida e, se a gente achar bem, um pouquinho de felicidade. E de pouquinho em pouquinho a gente se encontra na completude. A gente de repente para e se depara com  a certeza do ‘apesar de’, essa certeza colorida e salteada, essa certeza todinha, sorrindo pra gente.
O amor existe. A felicidade existe. Para todos nós, para mim, para você. Nesse caminho cheio de névoa, eu queria que você prometesse que você não vai parar de caminhar. Porque você sabe o caminho. Dá insegurança, dá incerteza, dá medo do próximo passo ser em falso? Dá.
Mas quando a nuvem dissipa você ainda está caminhando, ainda está no seu rumo.
E pode ser que alguém esteja indo na mesma direção para caminhar lado a lado.
Ou te peça carona no seu carro.
Ou talvez não, a gente vai seguir sozinha.
Bem, bem feliz. Ainda sim.
Acho que não sou muito boa com palavras e teorias de botequim, mas dizem que meu abraço é porreta.


Hoje eu queria te abraçar. 


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O reinado dos Castelões

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Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente no mesmo lugar em São Paulo. O vinho cuja propaganda está na placa nem existe mais. Não importa, o esforço parece ser mesmo o de deixar as coisas como outrora.
Ficamos tão encantados pelo clima proporcionado pelas toalhas quadriculadas, as fotos em preto e branco de pessoas ilustres, os recortes de jornal exaltando o lugar, as antigas flâmulas de time nas paredes, em sua maioria em verde e branco, que demoramos a notar as letras em caixa alta no cardápio: NÃO ACEITAMOS CARTÕES DE DÉBITO OU CRÉDITO. Saímos correndo para tirar dinheiro no caixa eletrônico e apreciar as iguarias. A opção pelo dinheiro é questionável, mas perfeitamente compreensível. Castelões resiste num esforço sobrenatural de manter as coisas como no passado. Em um dos recortes emoldurados na parede, li que os fornecedores são os mesmos há pelo menos 50 anos e não se usa extrato de tomate nas receitas. Os tomates, sem pele e sementes, são cozidos por pelo menos 4 horas diariamente para garantir um molho espetacular.
Espetacular é pouco. Em menos de um mês, fomos lá duas vezes. Na primeira ignoramos as (depois descobrimos) tão famosas pizzas para seguir a sugestão do garçom: fusilli com calabresa (“tem quem atravesse São Paulo só por causa desse prato”, diz ele), uma cerveja Paulistânia e uma porção de antepasto com o champignon mais gostoso que comi na vida. O buffet de antepasto tem umas delícias com temperos dignos de rei. A porção completa custa 29 reais, mas o garçom pede para você se servir e depois ele diz quanto custou. Pela balança? Não, no olho mesmo. A nossa custou 15 reais e deu pra lamber os beiços.
Na nossa segunda vez, com um casal de amigos, escolhemos duas pizzas: quatro queijos e castelões (com queijo e calabresa). É incrível o que eles conseguem fazer com uma pseudossimplicidade espantosa. Digo pseudo porque a receita parece ser simples, sem nada a mais de extraordinário. Mas é aí que encontramos a delícia do fazer artesanal. E é aí também que reside a força de manter os fornecedores dos produtos por tanto tempo. A massa é fresquinha, crocante. O queijo é apetitoso. A calabresa é peculiar. Posso dizer, com conhecimento de causa, que não fica devendo às boas pizzas italianas, as legítimas.
Para quem gosta de um bom restaurante italiano, à moda antiga, aconselho uma visitinha à rua Jairo Góis, 126. Não vá esperando luxo, esteja ciente que o ambiente é simples, embora o sabor não tenha nada a ver com isso. Vale a pena ainda tomar um pouco de cuidado, pois a região não é a das mais badaladas à noite (ainda mais com tutu em espécie na carteira). As duas vezes em que estive lá fui bem atendida (por garçons que parecem estar lá desde que a placa foi descerrada – no começo um pouco ranzinzas, mas desarmados após uma puxada de papo). Para quem é descendente de italianos, acredito que o gosto seja ainda maior, porque eu, particularmente, me senti na casa da nonna.


Castelões

Rua Jairo Góis, 126, Brás
http://casteloes.com.br
Só aceita pagamento em dinheiro

* Nota da blogueira 1: este texto foi originalmente escrito para o Site Gastrovia e publicado dia 20/11/2012. Esta é uma versão atualizada e editada.

* Nota da blogueira 2: em 2015, recebi uma mensagem do Fabio Donato, atual dono do Castelões, com um convite para jantar lá. Segundo ele, foi uma forma de retribuir a emoção que ele sentiu ao ler este texto (o qual encontrou ao acaso, na internet. Ele me encontrou no Facebook e me mandou uma mensagem muito gentil com o convite). Foi uma noite muito agradável, em que pude saber bem mais da história e da tradição desta cantina.
O dia do jantar, presente que este texto me rendeu. Com Fabio Donato (à direita), proprietário e anfitrião, e meu amigo Gil, que me acompanhou nesse mergulho na história desse lugar.


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Para o norte pedido, girassóis

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Não sei mais do que sou capaz. Acredito piamente em um esgotamento da fé sobre a raça humana. É possível ter esperança por um período, mas ao final de uma semana, um mês, um ano que seja, sem forças, sem braço, o cansaço toma conta. E não é aquele cansaço físico, nem o mental. Não é aquele cansaço de ter carregado lenha, é o de não saber por que se está procurando o fogo. Parecem esgotadas todas as possibilidades. “Tudo que você podia ser”, sabe quando o Milton canta no som do carro? Tudo aquilo que a gente não é, ainda não foi, é sofrido, mas tudo o que a gente não pode ser mais é arrebatador. É como se ver em um canto da praia, sobre as pedras, e de repente cair a ficha de que aquela imensidão existe, mas não é sua. É inalcançável. Não ser importante, não ser milionário, não gritar a sua voz no mundo. Eu já atendi a todas aquelas obrigações que te ensinam desde cedo. Não pulei nenhuma etapa, estou aqui onde deveria estar, mas não estou. Satisfeita, plena, consciente, bem-sucedida, admirada, no topo, em paz. Você entende que não é só não ter chegado a lugar algum, não é sobre estar sozinha engolindo vinho até o sono chegar, não é sobre não ter concluído o projeto que não tem cara ou corpo. É sobre não ter um caminho, você entende?

Ele parou o carro. Ela olhou através do vidro do carro a coreografia dos para-brisas. Enxergou ao longe ele ensopado, caminhando com um vaso na mão.



Olha, não sei muito sobre percursos. Na verdade, nem sei muito sobre você. Mas acho que quando a gente procura um caminho, já está nele. Seu norte não está neste vaso, mas talvez eles ajudem você a encontrar o que está procurando, porque eles sempre sabem para onde ir.



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Sou toda água, mareio nas tuas sem dar pé
Fito o céu me deixando levar, não sei das braçadas
Nesse navegar trajetos são mil, qual futuro
Em meu ventre habitam medos, seis bichos do mar
Um bilhão de peixinhos a me cocegar

O sol a me cegar, custo a ir contra a maré
Prefiro, flutante, desanuviar as borboletas
Pelas mãos carregar as tuas, mas não tenho o rumo
Vou me afastando da terra, parece que ela zomba
Sabe da direção improvável, da tempestade

Não há sentido nessa deriva, torta e flamejante
Até que vejo teu dorso à beira, a me esperar
E me dar a mão, sem entender ou apontar, remar
Os pares, enquanto dupla a caminhada, sabem-se
Mar de amar não tem caminhos, promessa incerta
Vamos lá, amor, se afogar?
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Prece de inverno

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Minha mãe diz que arrumar a cama todo dia faz a gente ficar protegido. Confesso que nem sempre lembro. Às vezes é escolher entre a cama, lavar a louça do café ou assistir um pouco de tevê. A coberta meio embolada, o pijama jogado no canto, travesseiro caído no chão.
Hoje numa calçada encontrei um morador em situação de rua arrumando a dele. Confesso que nem sempre reparo neles. Às vezes é a pressa, noutras estou resolvendo alguma coisa na tela, em algumas estou de olho nas vitrines. Eu meio distraída, desviando dos senhores, das senhoras e de suas casasmóveis.
O homem arrumava a cama com tanto zelo que prendeu meu olhar. Confesso que uma partezinha de mim pensou para que tanto cuidado em arrumar algo que qualquer um podia bagunçar. Vi sua mão colocando a coberta azul bem certinha embaixo do colchão fininho, dobrando bonito perto do travesseiro, passando a mão por cima para tirar toda ruga. Eu pensando que aquela cama era toda a sua casa, tanto esmero que valia.

Desejei aquele cuidado, a dedicação ao seu bem, aquela sabedoria. Confesso que eu, com uma cama bem maior, bem mais quentinha, com um teto sobre a cabeça e com uma casa inteira em volta dela, não me lembro de arrumar a minha. Quiçá me lembro de agradecer a minha. Desejei fortemente, rezando baixinho, que aquele senhor, de acordo com os ensinamentos da minha mãe, ficasse bem protegido.
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Meu projeto, meu pedido

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São Paulo, meu amor

Completamos cinco anos de namoro. Acho que já te conheço bem. Da mesma forma como você sabe dos meus podres. Já fizemos xixi com o outro junto. Você já me viu dizendo: nunca mais vou beber! Até cruzar com o próximo sábado. Já me viu chorar debaixo dos óculos escuros. E fingir que nada aconteceu.
Quando eu vim, meio bocozona de tudo, sua tática foi me encantar, charmosa, envolvente, sedutora, com seus trocentos museus por quilômetro quadrado. Com suas exposições, shows gratuitos, com seus cafés, seus teatros, seus parques sob duas rodas. Tateando meu prazer em ruas estreitas, permeadas por ipês floridos, que cruzadas outras esquinas se transformavam em abrigos de arranha-céus e largas avenidas.
Eu também era mais vivaz. Cruzava a cidade por um filme iraniano. Era aquela disposta, alegre, que não me importava com qualquer obstáculo. Você era o meu suficiente. E eu declarava o meu amor aos quatro ventos, sempre pronta a uma nova declaração de bem-querer, a um novo cartão postal.
Mas já passamos da fase de cantarolar na Ipiranga com a São João. Você não me impressiona mais, querida.
Porque já me ganhou.
Portanto, não é crise. Nem cansaço. Nem tédio, rotina. Passei a me perguntar por que te amava tanto. O vício pelo trabalho, a falta do mar, as quebradas de cabeça diárias, o individualismo gritante, os pares sempre tão reticentes, rasos, tanta e tanta preguiça.
Pensando e pensando, vi que não é esse o bem que você me traz. Vi que você é bem mais. Recordei o nosso início de namoro, a minha paixão, resistente à chuva de janeiro, que caía todo dia, todo dia, todo dia. Que travava as ruas, que alagava tudo, que desafiava a lógica do Google Maps impresso, bem antes da tela ao alcance das mãos. Aquele janeiro foi foda.
E eu resisti, mansinho, engolindo choro, porque queria ver então a gente, a gente, a gente, igual à música do Milton. Cinco anos depois posso bater no peito e falar feliz da nossa trajetória. Posso pedir replay dos tropeços e rir de tudo que parecia tão devastador e, passada meia década, se torna irrisório. Você me ensinou a conduzir, não um carro, mas meu caminho. Sou muito mais Tatiana em suas calçadas. Sou muito mais eu levando a cabo meu destino.
Te reconheço em suas malcriações, mas ainda sou eu a te chamar de minha. E se com cinco anos repensamos as relações e avaliamos o término do ciclo como um fim ou um recomeço, voto, sem dúvida, na segunda opção. Ainda quero me perder em seus ônibus, com ou sem enchente. Ainda quero me deslumbrar com seus museus, ainda quero caminhar em suas ruas como que em um formigueiro e dizer que não te trocaria. Passado tudo, a eterna aventura em que persiste, ainda somos os mesmos, afinal. Maior amor.
Você ainda faz parte do meu projeto, da minha escolha. É seu nome que respondo se perguntada por um lar. Ainda é seu o meu acordar. Ainda é em ti que projeto meus sonhos, apesar de eles se embaralharem com outras cidades em alguns devaneios loucos. Foi em um deles que sonhei que partia de ti. E chorava, copiosamente, porque ainda não era findo o projeto. Ainda quero ficar, São Paulo.
Ainda quero me perder em ti. Ainda quero que você me baste, mas em ti quero que me perca, me abocanhe, me devore. Me transborde. É chegada a hora de mais um passo, por mais que acabe. Quero a eternidade, por mais que chegue a hora de avançar para outros portos. Quero seu amor sempre em mim. 
Se te amo tanto, talvez um namoro seja muito pouco.
Casa comigo?




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