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Meu projeto, meu pedido

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São Paulo, meu amor

Completamos cinco anos de namoro. Acho que já te conheço bem. Da mesma forma como você sabe dos meus podres. Já fizemos xixi com o outro junto. Você já me viu dizendo: nunca mais vou beber! Até cruzar com o próximo sábado. Já me viu chorar debaixo dos óculos escuros. E fingir que nada aconteceu.
Quando eu vim, meio bocozona de tudo, sua tática foi me encantar, charmosa, envolvente, sedutora, com seus trocentos museus por quilômetro quadrado. Com suas exposições, shows gratuitos, com seus cafés, seus teatros, seus parques sob duas rodas. Tateando meu prazer em ruas estreitas, permeadas por ipês floridos, que cruzadas outras esquinas se transformavam em abrigos de arranha-céus e largas avenidas.
Eu também era mais vivaz. Cruzava a cidade por um filme iraniano. Era aquela disposta, alegre, que não me importava com qualquer obstáculo. Você era o meu suficiente. E eu declarava o meu amor aos quatro ventos, sempre pronta a uma nova declaração de bem-querer, a um novo cartão postal.
Mas já passamos da fase de cantarolar na Ipiranga com a São João. Você não me impressiona mais, querida.
Porque já me ganhou.
Portanto, não é crise. Nem cansaço. Nem tédio, rotina. Passei a me perguntar por que te amava tanto. O vício pelo trabalho, a falta do mar, as quebradas de cabeça diárias, o individualismo gritante, os pares sempre tão reticentes, rasos, tanta e tanta preguiça.
Pensando e pensando, vi que não é esse o bem que você me traz. Vi que você é bem mais. Recordei o nosso início de namoro, a minha paixão, resistente à chuva de janeiro, que caía todo dia, todo dia, todo dia. Que travava as ruas, que alagava tudo, que desafiava a lógica do Google Maps impresso, bem antes da tela ao alcance das mãos. Aquele janeiro foi foda.
E eu resisti, mansinho, engolindo choro, porque queria ver então a gente, a gente, a gente, igual à música do Milton. Cinco anos depois posso bater no peito e falar feliz da nossa trajetória. Posso pedir replay dos tropeços e rir de tudo que parecia tão devastador e, passada meia década, se torna irrisório. Você me ensinou a conduzir, não um carro, mas meu caminho. Sou muito mais Tatiana em suas calçadas. Sou muito mais eu levando a cabo meu destino.
Te reconheço em suas malcriações, mas ainda sou eu a te chamar de minha. E se com cinco anos repensamos as relações e avaliamos o término do ciclo como um fim ou um recomeço, voto, sem dúvida, na segunda opção. Ainda quero me perder em seus ônibus, com ou sem enchente. Ainda quero me deslumbrar com seus museus, ainda quero caminhar em suas ruas como que em um formigueiro e dizer que não te trocaria. Passado tudo, a eterna aventura em que persiste, ainda somos os mesmos, afinal. Maior amor.
Você ainda faz parte do meu projeto, da minha escolha. É seu nome que respondo se perguntada por um lar. Ainda é seu o meu acordar. Ainda é em ti que projeto meus sonhos, apesar de eles se embaralharem com outras cidades em alguns devaneios loucos. Foi em um deles que sonhei que partia de ti. E chorava, copiosamente, porque ainda não era findo o projeto. Ainda quero ficar, São Paulo.
Ainda quero me perder em ti. Ainda quero que você me baste, mas em ti quero que me perca, me abocanhe, me devore. Me transborde. É chegada a hora de mais um passo, por mais que acabe. Quero a eternidade, por mais que chegue a hora de avançar para outros portos. Quero seu amor sempre em mim. 
Se te amo tanto, talvez um namoro seja muito pouco.
Casa comigo?




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