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O reinado dos Castelões

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Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente no mesmo lugar em São Paulo. O vinho cuja propaganda está na placa nem existe mais. Não importa, o esforço parece ser mesmo o de deixar as coisas como outrora.
Ficamos tão encantados pelo clima proporcionado pelas toalhas quadriculadas, as fotos em preto e branco de pessoas ilustres, os recortes de jornal exaltando o lugar, as antigas flâmulas de time nas paredes, em sua maioria em verde e branco, que demoramos a notar as letras em caixa alta no cardápio: NÃO ACEITAMOS CARTÕES DE DÉBITO OU CRÉDITO. Saímos correndo para tirar dinheiro no caixa eletrônico e apreciar as iguarias. A opção pelo dinheiro é questionável, mas perfeitamente compreensível. Castelões resiste num esforço sobrenatural de manter as coisas como no passado. Em um dos recortes emoldurados na parede, li que os fornecedores são os mesmos há pelo menos 50 anos e não se usa extrato de tomate nas receitas. Os tomates, sem pele e sementes, são cozidos por pelo menos 4 horas diariamente para garantir um molho espetacular.
Espetacular é pouco. Em menos de um mês, fomos lá duas vezes. Na primeira ignoramos as (depois descobrimos) tão famosas pizzas para seguir a sugestão do garçom: fusilli com calabresa (“tem quem atravesse São Paulo só por causa desse prato”, diz ele), uma cerveja Paulistânia e uma porção de antepasto com o champignon mais gostoso que comi na vida. O buffet de antepasto tem umas delícias com temperos dignos de rei. A porção completa custa 29 reais, mas o garçom pede para você se servir e depois ele diz quanto custou. Pela balança? Não, no olho mesmo. A nossa custou 15 reais e deu pra lamber os beiços.
Na nossa segunda vez, com um casal de amigos, escolhemos duas pizzas: quatro queijos e castelões (com queijo e calabresa). É incrível o que eles conseguem fazer com uma pseudossimplicidade espantosa. Digo pseudo porque a receita parece ser simples, sem nada a mais de extraordinário. Mas é aí que encontramos a delícia do fazer artesanal. E é aí também que reside a força de manter os fornecedores dos produtos por tanto tempo. A massa é fresquinha, crocante. O queijo é apetitoso. A calabresa é peculiar. Posso dizer, com conhecimento de causa, que não fica devendo às boas pizzas italianas, as legítimas.
Para quem gosta de um bom restaurante italiano, à moda antiga, aconselho uma visitinha à rua Jairo Góis, 126. Não vá esperando luxo, esteja ciente que o ambiente é simples, embora o sabor não tenha nada a ver com isso. Vale a pena ainda tomar um pouco de cuidado, pois a região não é a das mais badaladas à noite (ainda mais com tutu em espécie na carteira). As duas vezes em que estive lá fui bem atendida (por garçons que parecem estar lá desde que a placa foi descerrada – no começo um pouco ranzinzas, mas desarmados após uma puxada de papo). Para quem é descendente de italianos, acredito que o gosto seja ainda maior, porque eu, particularmente, me senti na casa da nonna.


Castelões

Rua Jairo Góis, 126, Brás
http://casteloes.com.br
Só aceita pagamento em dinheiro

* Nota da blogueira 1: este texto foi originalmente escrito para o Site Gastrovia e publicado dia 20/11/2012. Esta é uma versão atualizada e editada.

* Nota da blogueira 2: em 2015, recebi uma mensagem do Fabio Donato, atual dono do Castelões, com um convite para jantar lá. Segundo ele, foi uma forma de retribuir a emoção que ele sentiu ao ler este texto (o qual encontrou ao acaso, na internet. Ele me encontrou no Facebook e me mandou uma mensagem muito gentil com o convite). Foi uma noite muito agradável, em que pude saber bem mais da história e da tradição desta cantina.
O dia do jantar, presente que este texto me rendeu. Com Fabio Donato (à direita), proprietário e anfitrião, e meu amigo Gil, que me acompanhou nesse mergulho na história desse lugar.


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Para o norte pedido, girassóis

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Não sei mais do que sou capaz. Acredito piamente em um esgotamento da fé sobre a raça humana. É possível ter esperança por um período, mas ao final de uma semana, um mês, um ano que seja, sem forças, sem braço, o cansaço toma conta. E não é aquele cansaço físico, nem o mental. Não é aquele cansaço de ter carregado lenha, é o de não saber por que se está procurando o fogo. Parecem esgotadas todas as possibilidades. “Tudo que você podia ser”, sabe quando o Milton canta no som do carro? Tudo aquilo que a gente não é, ainda não foi, é sofrido, mas tudo o que a gente não pode ser mais é arrebatador. É como se ver em um canto da praia, sobre as pedras, e de repente cair a ficha de que aquela imensidão existe, mas não é sua. É inalcançável. Não ser importante, não ser milionário, não gritar a sua voz no mundo. Eu já atendi a todas aquelas obrigações que te ensinam desde cedo. Não pulei nenhuma etapa, estou aqui onde deveria estar, mas não estou. Satisfeita, plena, consciente, bem-sucedida, admirada, no topo, em paz. Você entende que não é só não ter chegado a lugar algum, não é sobre estar sozinha engolindo vinho até o sono chegar, não é sobre não ter concluído o projeto que não tem cara ou corpo. É sobre não ter um caminho, você entende?

Ele parou o carro. Ela olhou através do vidro do carro a coreografia dos para-brisas. Enxergou ao longe ele ensopado, caminhando com um vaso na mão.



Olha, não sei muito sobre percursos. Na verdade, nem sei muito sobre você. Mas acho que quando a gente procura um caminho, já está nele. Seu norte não está neste vaso, mas talvez eles ajudem você a encontrar o que está procurando, porque eles sempre sabem para onde ir.



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Sou toda água, mareio nas tuas sem dar pé
Fito o céu me deixando levar, não sei das braçadas
Nesse navegar trajetos são mil, qual futuro
Em meu ventre habitam medos, seis bichos do mar
Um bilhão de peixinhos a me cocegar

O sol a me cegar, custo a ir contra a maré
Prefiro, flutante, desanuviar as borboletas
Pelas mãos carregar as tuas, mas não tenho o rumo
Vou me afastando da terra, parece que ela zomba
Sabe da direção improvável, da tempestade

Não há sentido nessa deriva, torta e flamejante
Até que vejo teu dorso à beira, a me esperar
E me dar a mão, sem entender ou apontar, remar
Os pares, enquanto dupla a caminhada, sabem-se
Mar de amar não tem caminhos, promessa incerta
Vamos lá, amor, se afogar?
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