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Mostrando postagens de Agosto, 2016

O reinado dos Castelões

Existem lugares que são verdadeiros achados, residindo insuspeitos no meio do caminho. Castelões é um deles. Num domingo quente e sem planos, topei com ele em uma rua deserta do Brás, onde morei por um ano e meio. Nesse tempo, acostumei-me, embora muita gente torcesse o nariz, às ruas feias do bairro que já chegou a ser mais conhecido na Itália que a própria São Paulo. Hoje o Brás perdeu um pouco do encanto e o título de ‘berço’ italiano acabou ficando para a Mooca, entre os menos entendidos. Para o Brás, sobrou a fama de sujo, feio, perigoso e casa de um Arnesto meio esquecido.
Por isso, nem me abalei quando meu então namorado sugeriu que almoçássemos num lugar que de longe tinha aparência meio duvidosa.No Brás tudo tem esse quê de capenga. Mas Castelões foi um engano nesse sentido. Ao chegar perto você percebe que sim, está diante de um lugar raro. A placa é de 1924 e não é mentirosa. O restaurante existe lá desde então. Trata-se do local mais antigo funcionando ininterruptamente n…

Para o norte pedido, girassóis

Não sei mais do que sou capaz. Acredito piamente em um esgotamento da fé sobre a raça humana. É possível ter esperança por um período, mas ao final de uma semana, um mês, um ano que seja, sem forças, sem braço, o cansaço toma conta. E não é aquele cansaço físico, nem o mental. Não é aquele cansaço de ter carregado lenha, é o de não saber por que se está procurando o fogo. Parecem esgotadas todas as possibilidades. “Tudo que você podia ser”, sabe quando o Milton canta no som do carro? Tudo aquilo que a gente não é, ainda não foi, é sofrido, mas tudo o que a gente não pode ser mais é arrebatador. É como se ver em um canto da praia, sobre as pedras, e de repente cair a ficha de que aquela imensidão existe, mas não é sua. É inalcançável. Não ser importante, não ser milionário, não gritar a sua voz no mundo. Eu já atendi a todas aquelas obrigações que te ensinam desde cedo. Não pulei nenhuma etapa, estou aqui onde deveria estar, mas não estou. Satisfeita, plena, consciente, bem-sucedida, a…
Sou toda água, mareio nas tuas sem dar pé
Fito o céu me deixando levar, não sei das braçadas
Nesse navegar trajetos são mil, qual futuro
Em meu ventre habitam medos, seis bichos do mar
Um bilhão de peixinhos a me cocegar

O sol a me cegar, custo a ir contra a maré
Prefiro, flutante, desanuviar as borboletas
Pelas mãos carregar as tuas, mas não tenho o rumo
Vou me afastando da terra, parece que ela zomba
Sabe da direção improvável, da tempestade

Não há sentido nessa deriva, torta e flamejante
Até que vejo teu dorso à beira, a me esperar
E me dar a mão, sem entender ou apontar, remar
Os pares, enquanto dupla a caminhada, sabem-se
Mar de amar não tem caminhos, promessa incerta
Vamos lá, amor, se afogar?