O que fazer quando o interruptor se apaga

A palavra “desligado” é muito forte. Parece que alguém apertou um botão e puff, de repente você sumiu. No fundo é isso mesmo.

Fui desligada há duas semanas e pela primeira vez na vida. Quando penso nas contas fixas, ainda dá um certo medinho, confesso. Mas tem outro sentimento que vem daí. A palavra “desligada” é muito forte. Parece que alguém apertou um interruptor e puff, de repente você sumiu. No fundo é isso mesmo.
Ser desligada é sair de um grupo, por mais que você não seja tão fã dele. É romper uma rotina com a qual você aprendeu a lidar por algum tempo. É até reclamar da segunda-feira, não ter mais que bater o cartão no sentimento de ser parte do proletariado.
Fazer parte, aliás, é algo que some quando você tem que voltar à antiga empresa para resolver qualquer coisa. Por mais que se tenha uma boa relação, o lance do interruptor faz sentido porque você é sutilmente visto e tratado como um corpo estranho de um dia para o outro. Não importa que tudo esteja bem resolvido. É inegável que dali – pelo menos dali – você foi apagado.
O desligamento é um pouco dolorido também por extinguir uma parte da sua biografia cotidiana, coisa contra a qual sempre lutei muito em São Paulo. Aqui um emprego te define, pelo menos em partes. Repare. Ao conhecer alguém, você sempre pergunta ou responde: “trabalha com quê?”, “qual a sua profissão?”, ou “onde trabalha?”. Aquelas oito horas diárias consomem quase tudo o que você é – quando não deveria.
É difícil responder a essas perguntas quando você é demitido/a e seus interlocutores acham que estar num emprego é o único indicador de sucesso na vida. Claro que um emprego te faz pertencente a um grupo, a uma rotina, a um hábito e é bem provável que você recupere isso rapidamente. Porém, é mais difícil se você se deixar engolir pelos (comuns) escorregões de medo, receio ou falta de esperança.
A demissão – esperta raposa – te intimida, mas dá em troca vários outros sentimentos. O principal é o conjunto de novos olhares sobre a vida, sobre você mesmo, a sua casa, sua cidade. Já reparou como nas ruas caminha-se diferente numa quarta-feira às 3 da tarde? Não? Talvez porque você esteja sempre no escritório nesse momento.
Nesse meu curto período de experiência no desemprego, tenho aprendido que o mais importante é ter sabedoria para se dar bem quando o interruptor se apaga. O mais sábio, tenho aprendido é que a perspectiva de “ser desligado” é a ótica daquela empresa. Você não faz parte dela, fato. Mas experimente observar por um ângulo mais inteligente – e único possível – o seu. O que aconteceu é que essa experiência somente se encerrou na sua vida. Você continua aí, profissional, vivo, com todas as luzes – e capacidades - acesas para novas vivências.
Quando um interruptor se apaga, a menos que seja para dormir, o menos indicado é continuar no cômodo, mesmo que metaforicamente. Encerre esse ciclo e saia sem olhar para trás (tá bom, pode dar uma espiadinha, vale como aprendizado). Parta rumo a outros cômodos, outras casas, outros bairros. Há muitos deles te esperando. Com interruptores a postos, para se acenderem quando você entrar.


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