Empurre sua vaquinha do precipício. Agora.

Calma. O conselho não é literal, só metafórico. Foi uma amiga que me lembrou dessa história antiga, um conto budista sobre um sábio mestre, seu jovem aprendiz, uma família muito pobre e, claro, a vaquinha. Desde que ouvi essa anedota, tenho acompanhado muitas “vaquinhas” jogadas precipício afora e todas elas me fizeram pensar o quanto esse conselho é válido.


Um mestre, muito sábio, peregrinava junto com seu jovem discípulo. Avistaram uma casa muito pobre, caindo aos pedaços e decidiram pedir abrigo por uns dias. A família pobre, mas muito generosa, acolheu os dois. Na manhã seguinte, o mestre perguntou à família como faziam para sobreviver, uma vez que não havia comércio na região e no quintal não havia plantação. O pai da família respondeu que graças a Deus tinham uma vaquinha, que produzia leite do qual tiravam todo o sustento. O leite, ou derivados, era trocado e vendido para comerciantes de outras cidades.
O mestre agradeceu a estada e, depois de uns dias, decidiu que iriam embora. No caminho, viram a vaquinha, esquálida, pastando serenamente. Minutos depois de caminhada o mestre quebrou o silêncio, ordenando ao aprendiz: “Volte lá e jogue a vaquinha do precipício”. O discípulo ficou arrasado. “Mas mestre! Eles não terão como viver!”. Como de nada adiantou sua súplica, voltou lá e empurrou a pobre vaca do precipício. Nunca mais se falou no assunto.
Passaram-se muitos anos, até que os dois puderam passar de novo nas redondezas. O discípulo ainda estava cheio de remorso pelo que havia feito e pediu permissão ao mestre para voltar visitar a família. Quando chegou, um susto. Uma construção grande, com um lindo jardim, ocupava o local. Ao invés da terra seca, agora viam-se horta, pasto, vários animais e funcionários trabalhando. Com lágrimas nos olhos, o discípulo chegou perto de um rapaz e perguntou. “Sabe me dizer o que aconteceu com a família que morava aqui anos atrás?”.
O rapaz respondeu: “Somos nós!”. “Não, refiro-me a uma família muito pobre, com uma casa muito velha”. O jovem rapaz respondeu. “Sim, somos nós”. E, respondendo aos olhos assustados do outro, continuou: “Tínhamos uma vaquinha, que nos dava todo o nosso sustento. Um dia ela morreu e a gente ficou desesperado. Mas precisamos encontrar novas formas de sobreviver e aí que descobrimos habilidades e oportunidades que jamais havíamos imaginado antes. Hoje estamos aí, muito melhores que aquela época.

Quando eu ouvi essa história recentemente, tinham acabado de empurrar minha vaca do precipício e eu estava no exato ponto de desespero da família. A primeira coisa que a gente pensa é: ó, céus, como vou viver daqui para frente? A menos que você seja a própria vaquinha, é muito provável que essa história termine de um jeito infinitamente melhor do que quando você estava no começo. Se você está vivendo algo parecido, chegou a hora de avaliar.

1 – As vaquinhas nossas de cada dia
A vaquinha é uma metáfora para a nossa zona de conforto. Para aquilo que sabemos que não pode nos definir, ou limitar, mas acabamos nos habituando, por ser mais fácil, por nos trazerem alívio rápido. A vaquinha pode ser um emprego, um relacionamento, uma casa, uma cidade, uma carreira. Seja lá o que seja essa vaquinha, preste bem atenção naquilo que já anda bem esquálido, sem forças, e você insiste em viver dele.

2 – As vaquinhas empurradas, aquelas que empurramos
Faz uma enorme diferença. Quando alguém empurra sua vaquinha, você é pego de surpresa, o chororô é maior. Mas às vezes só aconteceria se fosse exatamente assim. Tem situações tão enraizadas que não permitem que a gente se mova e, nesse caso, um chacoalhão faz a gente despertar desse berço esplêndido em que estávamos deitados eternamente. No caso dos ciclos que decidimos finalizar, ocorre que eles já estavam por um fio. Dá para antecipar a dor da queda, empurrar e sair correndo, mas nem por isso a dor é menor.

3 – O lado bom das tragédias
Se eu soubesse onde estaria exatamente um mês depois da queda da minha vaquinha, faria questão de voltar no tempo só para rebolar até o chão de felicidade. Quando perdemos algo que faz parte da nossa zona de conforto, nem imaginamos o infinito de possibilidades que temos pela frente e que não enxergávamos por estarmos ocupados demais vivendo algo que, convenhamos, nem nos fazia tão bem assim.
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4 – Não espere outra vaquinha
Às vezes o choque de um rompimento brusco é tão dramático que as pessoas naturalmente se afastam de buscar situações semelhantes, mas é bom estar atento. Não caia na tentação de buscar outra zona de conforto parecida com aquela que você vivia. Aproveite o choque, viva a dor e reflita sobre o que quer e merece. Estar consciente das situações ruins ou limitantes é sempre a melhor saída para não atrair algo igual.

5 – Vá à luta, meu bem
Não basta a queda da vaquinha para tudo se resolver como mágica. Lembra da família? É preciso parar e refletir as habilidades que você tem – e as que precisa adquirir – para se reerguer. Com certeza, as melhores oportunidades vêm dessa reflexão.

6 – Agradeça, sempre
Trinta e um anos de experiência nessa roda viva me fizeram digna de dar esse conselho. Agradeça sempre, mesmo quando a situação for de amargar. Toda história traz um aprendizado, nos torna melhores, mais fortes, mais evoluídos. Uma vez um psicanalista me disse que absolutamente nenhuma mudança que acompanhou entre seus pacientes foi para pior.
Segundo ele, toda mudança – de relacionamento, emprego, cidade – costuma vir para o bem. Como achei desafiador, tentei encontrar entre amigos e conhecidos algum exemplo de mudança para pior e não encontrei. O segredo muitas vezes está em aceitar, agradecer e se reconstruir. Cada dia um pouquinho e sempre mais.
Uma questão de perspectiva. Pinterest.

E você, já parou para pensar quais são as vaquinhas que precisa empurrar do precipício?

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