Não se comparar: um dos maiores desafios de ser mulher




Atire a primeira pedra quem nunca criou comparações, mesmo que imaginárias, com outras mulheres – e até amigas! Vencer o desafio de não se comparar não é fácil, mas pode ser um exercício constante.


Tenho uma amiga que coleciona desafetos ao longo da vida, quase sempre outras mulheres, que a infernizam, criam fofocas, tentam desestabilizá-la, ignoram suas conquistas, exaltam suas fraquezas. Algumas a evitam, outras a sacaneiam, muitas a incomodam. De forma sutil ou declarada. Mesmo em grupos em que ela seja praticamente obrigada a estar, minha amiga busca evitar essas mulheres, mas teme um dia estar sozinha. Rodeada de um deserto de solidão.
O que há com ela? Minha amiga é bonita, inteligente, curte a vida, carrega uma história bacana de luta e de sorte, aquelas pessoas que têm estrela. É querida, cativante, busca ajudar sempre que pode. Não é só bem resolvida, também sabe expor suas fraquezas, porque oras, isso é normal. Isso não faz dela uma heroína, é humana, uma das mais lindas que conheço.
Fico me perguntando o que minha amiga faz para colecionar esses desafetos, porque não existe uma boa razão. Pois bem, acho que as outras mulheres enxergam tudo isso nela e talvez, por não se sentirem como ela, acreditam que a sabotagem seja uma boa saída.

Por que isso não faz sentido?

Primeiro, porque parte da comparação. E no ~vídeo~ de hoje, meninas, eu vou mostrar porque a comparação é uma bosta.

Mas, Tati, você não disse que fomos ensinadas a nos compararmos umas com as outras?

Desde criancinhas. Vivemos num grande concurso de Miss que extrapolou aquelas passarelas infantis e hoje se perpetua sobre quem é mais magra, mais estudada, mais famosa ~no Instagram~ (socorro!), mais dominante nas rodas. Sim, nós vivemos num sistema que privilegia os homens e incita as mulheres à rivalidade, isso é bom para o patriarcado (já falei sobre isso aqui).

O que fazer, então?

Não se trata de quem é a culpa, mas tentar cotidianamente ampliar a consciência. Às vezes a gente tem que fazer um esforço sobre-humano para enxergar essas armadilhas que estão por toda a parte e ir por outro caminho.

Afinal, você nunca ganha nada ao se comparar

Pelo contrário, perde, porque se comparar faz mal, cria uma energia ruim dentro da relação que você estabelece com essa outra pessoa. Se for com outra mulher, pense que vai de encontro a sororidade, uma prática que nos define pela solidariedade e não pela competição, que muito resulta da comparação.

A comparação é pela falta

Não interessa se você fez 14 pós-graduações e a pessoa com quem (erroneamente) você vai se comparar nem entrou na faculdade. Isso não quer dizer nada, mas o que eu quero dizer é que se você quiser realmente se machucar, como é comum nesta armadilha, você sempre se nivelar por um quesito no qual você perde feio. Ela canta e você não, ela tem piscina em casa e você não, ela mora em casa e você em apartamento, ela tem 1.500 amigos no Facebook e você 500. Parece não fazer sentido? Não, não faz mesmo.

Não caia na rede (social)

A comparação também é uma víbora ainda mais perigosa em tempos de Instagram, Facebook e seus associados. O contato com o outro se reduziu – ou se ampliou, já que vemos as pessoas o dia inteiro na timeline – ao que vemos nas redes. E o que vemos nas redes é a melhor parte. O crème de la crème. É a gente rico, famoso, no melhor ângulo, recebendo prêmios, carregando orgulhosos troféus. Cheios de filtros. E você sabe exatamente como é sua vida, acordando remelenta, nas vacas gordas e magras, marés boas e ruins. No fim das contas, você tá comparando a sua vida real com a vida maquiada das pessoas, o que é cruel.

A comparação gera efeitos devastadores

Lembram-se da amiga que citei no começo? Acredito que, ao se afastar, ela faz um bem para si mesma. Mas como não acreditar que todas perdem? Essas mulheres perdem a companhia da minha amiga, alguém incrível. Já ela perde, aos poucos, essa alegria de se relacionar com outras.
Comparar-se pode parecer algo bobo, sem muitas consequências, mas essas emoções em excesso podem gerar problemas muito mais sérios. Sem controle, podem ser estopim para ansiedade, depressão e até doenças crônicas. A gente é (e tem que ser!) maior que isso, né não?

Dica de leitura

A história de duas mulheres que se conhecem desde muito novas e se espelham uma na outra, comparam-se entre si, competem e se machucam é um dos motes da Série Napolitana, de autoria de Elena Ferrante, composta de quatro livros: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e de quem fica e História da menina perdida. Estou no segundo livro e recomendo muito a história de Lenu e Lila. Juro que você vai se apaixonar, não sem antes se reconhecer nestas relações áridas.


Texto originalmente publicado no site Da Pimenta. Leia todos os textos meus aqui.

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