O roubo das garças


- Rodolfo, desce.
A voz era do meu pai, ordenando que meu irmão saísse do carro. Ele foi, sem saber direito como aquilo acabaria. Ficou diante de uma árvore frondosa, semelhante a que tínhamos no jardim de casa, só que no meio da estrada. Sobre os galhos da árvore, muitas garças. A cena era linda, fim de tarde, horizonte alaranjado numa estrada do interior do Sul do Brasil, quase deserta. Os últimos raios de sol atravessavam os galhos da árvore e pousavam nas garças bailarinas. Elas arrevoavam e se acomodavam em movimentos sutis e coordenados. E eram muitas, dezenas, centenas, talvez milhares. Meu irmão, sendo um só, era sobretudo um adolescente obediente. Dava uns passos e, receoso, voltava sempre o olhar ao meu pai que, dentro do carro, fazia “vai” com a mão.
A missão era clara. Pegar o máximo de garças possíveis e colocar dentro no porta-malas.
Respirou fundo e atolou-se até os joelhos de lama e bosta, maldizendo tudo e qualquer outra coisa responsável por deixar aquela árvore às vistas do meu pai. E pegou. Aleatoriamente: garça macho, garça fêmea, filhotes de um, pai e mãe de outro. Não pensava em nada, só queria acabar com aquele sofrimento. Menos dele, mais dos bichos. Catou umas trinta aves e colocou-as no carro.
Foi um dia que meu pai chegou em casa contando que teve uma visão. Com aquele tom cheio de cerimônias, anunciando as grandes ideias que hoje nos arrancam gargalhadas mas já nos tiraram um pouco de sangue infantil, disse que viajava pela estrada e de repente enxergou. “Parecia uma miragem”, ele dizia. Uma árvore, solitária no meio da estrada deserta, muito semelhante ao grande ipê que tínhamos no quintal. E meu pai contava, olhos marejados, que em todos os galhos havia garças, dezenas, centenas, talvez milhares. Era uma árvore mágica, aquela magia que ele queria ter para si. Ninguém deve ter prestado muita atenção. Mas deveríamos. Dias mais tarde ao anúncio do desejo ele fingiu que precisava de companhia na estrada. O bote certeiro. Entre uma cidade e outra desviou o caminho assoviando e a encontrou.
A árvore miragem, o milagre da natureza. Meu irmão no banco de trás arranhado, bosteado, cheio de terra e penas. As aves, desesperadas pelo cativeiro forçado, grunhiam. Os berros durante a viagem de volta não eram nada. Elas incomodariam muito mais. Primeiro de tudo, o óbvio. As garças jamais ficariam plácidas e comportadas no nosso jardim como ficavam na árvore que escolheram voluntariamente como morada. Desde o primeiro momento fugiram, pularam para o quintal do vizinho, escapavam ferozmente como que da fúria de um ditador assassino.
Passaram-se dias delas fugindo e da gente buscando até que as pobres começaram a atacar a grama e o jardim de minha mãe. Aí entrou em ação a fúria nordestina, nossa conhecida já. Lição antiga, faça tudo, mas não rele no jardim de minha mãe. Um grito e umas palavras no seu dialeto foram suficientes. Até as garças ficaram com medo. Meu pai achou, muito a contragosto, uma solução paliativa. Fez um cercado de arame em volta da árvore, um cubículo, e enfiou os animaizinhos ali. “Até se acostumarem que aqui é a casa delas”, explicava ele.
Eu não entendia como nenhum dos vizinhos não denunciava a gente para o Ibama. Eu tinha um verdadeiro pânico das garças, nossa casa se transformou num verdadeiro inferno. Parecia uma alucinação coletiva e, ao invés de dar um basta, a gente não duvidava do devaneio. Minha irmã mais nova ficou, contrariada, responsável por alimentar os animais. Não me lembro qual foi a solução paliativa que meu pai inventou para suprir as necessidades nutritivas das garças. Até hoje não sei direito o que elas comem. Meu pai, aos poucos, e só aos poucos, foi percebendo que não havia sido uma boa ideia. Com o passar do tempo, as pobrezinhas foram morrendo, uma a uma. Não se sabe quais se foram por causa da fome, quais de tristeza. Só sei que algumas se enforcaram tentando fugir pelas arestas do arame. Até hoje agradeço por meu pai não ter sido preso e todos nós juntos, cúmplices. Tempos depois ele quis ter uma jiboia na árvore, disse que um amigo havia ganhado uma em uma rifa. Não sei, realmente, onde o Ibama atua. Também não sei de que forma meu pai seleciona suas amizades.
Minha irmã por um tempo foi a maior encarregada das garças. Dessas atividades, sobraram-lhe umas cicatrizes nos braços, devido aos aranhões provocados pelos arames que escapavam. É a única lembrança visível que temos dessa história. Também é a única prova que não é uma maluquice inventada. Depois que a última ave morreu, meu pai deu um fim no arame e nunca mais se falou em semelhante ideia. Hoje ele tem pavor de tráfico de animais, até se enjaulou em um protesto contra pessoas que aprisionam animais silvestres. Apareceu no jornal. Sim, meu pai tem memória curta. E uma longa, longa lista de ideias.

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